TITULO: O MEU MARIDO GOSTA DE SER CORNO E AGORA?




### **PARTE I – A Rotina Quebrada**  
*(Capítulos 1 a 4 – Introdução do casal e a descoberta)*

**Capítulo 1 – O Casamento Perfeito**  
Mostra um dia normal na vida da Alice. Acorda, prepara o pequeno-almoço para a Inês, vai trabalhar, volta para casa. Vê o Tiago como o marido calmo e previsível de sempre. Há uma cena de sexo rápida e carinhosa à noite. Tudo parece bem. Termina com a Alice a pensar que, apesar de tudo ser um pouco monótono, tem sorte por ter um casamento estável.

**Capítulo 2 – Pequenos Sinais**  
A Alice começa a notar coisas pequenas: o Tiago mais distraído, o telemóvel sempre virado para baixo, noites em que ele fica mais tempo no computador “a trabalhar”. Ela não dá muita importância, mas o leitor já sente que algo não está bem.

**Capítulo 3 – A Pasta Esquecida**  
A Alice precisa de usar o computador do Tiago (o dela está a dar problemas). Enquanto procura um documento, abre uma pasta escondida. Encontra dezenas de vídeos e histórias de “cuckold”, “hotwife”, “esposa com outro”. Fica paralisada. Lê o título de uma história. Fecha tudo rapidamente quando ouve o Tiago a chegar.

**Capítulo 4 – A Confrontação**  
A Alice não consegue dormir. No dia seguinte confronta o Tiago. Ele tenta negar no início, depois desmorona. Confessa que gosta da ideia de ela estar com outro homem enquanto ele observa ou é humilhado. A Alice explode. Chora, grita, pergunta se ele a ama de verdade. O capítulo termina com ela a dormir no quarto de hóspedes.

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### **PARTE II – O Turbilhão**  
*(Capítulos 5 a 10 – O choque emocional e as primeiras consequências)*

**Capítulo 5 – “Quem és tu?”**  
A Alice passa o dia seguinte em choque. Não consegue trabalhar. Relembra toda a vida sexual deles e questiona tudo. Pensa que o Tiago nunca gostou dela de verdade. Tem uma crise de identidade (“Será que sou tão pouco mulher que ele precisa de imaginar outros homens?”).

**Capítulo 6 – A Amiga**  
A Alice conta tudo à Joana num café. A reação da Joana é mista: choque, mas também curiosidade. Joana pergunta coisas diretas que a Alice ainda nem conseguiu pensar. Esta conversa abre portas na cabeça da Alice.

**Capítulo 7 – A Primeira Conversa Séria**  
Tiago e Alice sentam-se à mesa da cozinha à noite (Inês está a dormir). Tiago explica quando começou a sentir isto, como tentou reprimir durante anos, e que nunca quis trair. A Alice ouve, mas está fria. Pergunta: “E agora queres que eu faça isso por ti?”

**Capítulo 8 – Noites em Branco**  
A Alice começa a pesquisar sozinha sobre o fetiche. Vê vídeos. Sente nojo, raiva… e, em alguns momentos, uma estranha excitação que a deixa ainda mais confusa e envergonhada. Tem pesadelos e fantasias misturadas.

**Capítulo 9 – A Inês no Meio**  
A filha começa a notar que os pais estão estranhos. Há uma cena tensa no pequeno-almoço. A Alice sente-se culpada por estar a destruir a família por causa disto. Pensa em separar-se.

**Capítulo 10 – O Ultimato**  
Tiago diz que entende se ela quiser acabar o casamento. Mas também diz que, se ela quiser tentar, ele está disposto a fazer tudo do jeito dela. A Alice fica furiosa com a pressão. O capítulo termina com ela a dizer: “Preciso de tempo.”

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### **PARTE III – E Agora?**  
*(Capítulos 11 a 17 – O processo de decisão e os primeiros passos)*

**Capítulo 11 – A Curiosidade**  
A Alice começa a fantasiar sozinha. Em vez de se masturbar a pensar no Tiago, começa a imaginar cenários com outros homens enquanto o Tiago observa. Fica chocada consigo própria. Fala com a Joana novamente.

**Capítulo 12 – Regras**  
Os dois sentam-se e começam a definir regras (caso ela decida experimentar). Esta conversa é longa, desconfortável e estranhamente íntima. Pela primeira vez em muito tempo, falam abertamente sobre sexo.

**Capítulo 13 – O Primeiro Teste**  
A Alice aceita fazer um “ensaio” pequeno: vão a um bar e ela flerta com um homem enquanto o Tiago observa de longe. Não acontece nada físico, mas a tensão é enorme. Quando voltam para casa, têm o sexo mais intenso dos últimos anos.

**Capítulo 14 – Ciúmes**  
Depois do bar, a Alice sente-se poderosa… mas também com ciúmes do próprio desejo do Tiago. Começa a questionar se ele a ama ou se só gosta da humilhação. Há uma discussão forte.

**Capítulo 15 – A Proposta**  
Tiago sugere que ela marque um encontro com alguém de confiança (talvez um conhecido de ambos ou alguém de uma app). A Alice entra em pânico. Pede mais tempo.

**Capítulo 16 – A Noite em que Quase Acontece**  
Marcam um encontro com um homem que a Alice achou atraente online. Chegam ao hotel. A Alice está à beira de ir até ao fim, mas no último segundo desiste. Volta para casa em lágrimas. Tiago consola-a, mas ambos estão confusos.

**Capítulo 17 – O Ponto de Rutura**  
A Alice chega à conclusão de que não consegue continuar assim. Ou aceita totalmente ou acaba o casamento. Pede ao Tiago que seja completamente honesto sobre o que ele realmente quer ver. Ele é. Pela primeira vez, ela ouve os detalhes mais crus do fetiche dele.

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### **PARTE IV – Depois da Decisão**  
*(Capítulos 18 a 22 – Consequências e final)*

**Capítulo 18 – A Primeira Vez**  
A Alice decide tentar. Tem o primeiro encontro sexual com outro homem, com o Tiago presente (ou a observar de longe, conforme preferires). Esta cena pode ser longa e explícita, dependendo do tom que quiseres.

**Capítulo 19 – O Depois**  
No dia seguinte, a Alice acorda com sentimentos contraditórios: excitação, vergonha, amor pelo Tiago, medo de ter destruído algo. Os dois têm uma conversa honesta sobre o que sentiram.

**Capítulo 20 – A Nova Dinâmica**  
O casal tenta encontrar um equilíbrio. Há momentos bons, momentos de ciúmes e insegurança. A Alice começa a descobrir coisas novas sobre o próprio desejo.

**Capítulo 21 – A Verdade**  
A Alice confronta o Tiago com uma pergunta difícil: “Se eu gostar disto… vais continuar a gostar de mim da mesma forma?” A resposta dele é sincera e revela mais sobre ele do que ela esperava.

**Capítulo 22 – E Agora?** (Final)  



**Capítulo 1 – O Casamento Perfeito**

Acordei antes do despertador, como quase sempre. O quarto ainda estava escuro, mas a luz cinzenta da manhã já entrava pelas frestas das persianas. Ao meu lado, o Tiago dormia de barriga para cima, com um braço por cima da cara, como fazia desde que nos conhecíamos. Respirei fundo e fiquei uns segundos só a ouvir o silêncio da casa. Não havia barulho de trânsito ainda, só o zumbido baixo do frigorífico na cozinha e o som distante de um carro a passar na rua.

Levantei-me devagar, para não o acordar. Pus o roupão por cima do pijama e fui descalça até à cozinha. A Inês ainda dormia. Pus água a ferver, preparei o café do Tiago — forte, sem açúcar — e o meu, com um pouco de leite. Depois abri a janela da cozinha e deixei entrar o ar fresco de outubro. O bairro ainda estava calmo. Era uma daquelas manhãs em que Lisboa parecia uma cidade mais pequena, mais nossa.

Aos poucos, a casa foi acordando. Primeiro ouvi o chuveiro do quarto de banho da Inês. Depois os passos dela pelo corredor, arrastando os chinelos de unicórnio que eu lhe tinha comprado no verão passado. Entrou na cozinha ainda a esfregar os olhos, com o cabelo castanho todo despenteado.

— Bom dia, mãe — murmurou, sentando-se à mesa.

— Bom dia, amor. Dormiste bem?

— Mais ou menos. A Joana da minha turma disse que ia trazer o cão à escola hoje e eu sonhei que mordia alguém.

Sorri e pus-lhe o iogurte e a torrada à frente. A Inês tinha onze anos e ainda falava comigo como se eu fosse a única pessoa no mundo que entendia as coisas importantes. Isso ia mudar em breve, eu sabia. Mas por enquanto ainda era assim.

O Tiago apareceu uns minutos depois, já vestido com a camisola de gola alta que usava para trabalhar em casa. Beijou-me na testa, como fazia todas as manhãs, e sentou-se ao meu lado com o telemóvel na mão.

— Tens reunião hoje? — perguntei, enquanto lhe servia o café.

— Só às onze. Depois estou livre o resto do dia.

— Boa. Assim podes ir buscar a Inês à escola se eu me atrasar.

Ele acenou com a cabeça e continuou a olhar para o ecrã. Era assim que as nossas manhãs eram. Calmas. Previsíveis. Sem grandes surpresas. E eu gostava disso. Tinha gostado durante catorze anos.

Depois de levar a Inês à escola, fui para o escritório. O trânsito estava normal para a altura. Pus a rádio e deixei-me ir no piloto automático. No trabalho, o dia correu como todos os outros. Reuniões, emails, um processo de divórcio complicado que me estava a dar dores de cabeça. À uma e meia almocei sozinha no café da esquina, como fazia quase sempre. Comi uma salada e li as notícias no telemóvel. Nada de especial.

Quando cheguei a casa, pelas seis e meia, o Tiago já tinha feito o jantar. Frango no forno com batata doce. A Inês estava no quarto a fazer os trabalhos de casa. Sentei-me na cozinha enquanto ele terminava de temperar a salada.

— Correu bem o dia? — perguntou, sem tirar os olhos da tábua de cortar.

— Mais ou menos. O caso da Paula continua a dar trabalho. E tu?

— Nada de especial. Resolvi uns problemas de um cliente em França e depois vi um episódio de uma série enquanto esperava.

Era sempre assim. As nossas conversas eram tranquilas, sem arestas. Nunca discutíamos por causa de dinheiro nem por causa de ciúmes. Éramos um daqueles casais que os amigos apontavam como exemplo. “Vocês são tão estáveis”, diziam. E nós éramos. Ou pelo menos eu pensava que éramos.

Depois do jantar, ajudámos a Inês com os trabalhos durante uma hora. Depois ela foi para o quarto ver um desenho animado antes de dormir. Eu e o Tiago ficámos na sala, cada um no seu lado do sofá. Ele com o computador portátil nas pernas, eu com um livro que andava a tentar ler há três semanas. De vez em quando trocávamos duas frases. Nada importante.

Às onze da noite, depois de a Inês estar a dormir, fomos para o quarto. Eu estava cansada, mas não demasiado. Quando ele se deitou ao meu lado e passou a mão pela minha cintura, percebi que queria fazer amor. Não disse nada. Só me virei para ele e deixei que me beijasse.

O sexo foi como quase sempre. Doce, conhecido, sem pressa. Ele sabia exatamente onde me tocar, quanto tempo demorar, quando abrandar. Eu fechei os olhos e deixei-me ir, como fazia há anos. Quando acabou, ele beijou-me no ombro e disse “amo-te”, como dizia quase todas as vezes. Eu respondi o mesmo, com a voz ainda um pouco arquejante.

Depois ficámos deitados no escuro, ele com o braço por cima da minha barriga, eu a olhar para o teto. Pensei na Inês, na escola dela, na reunião que tinha marcada para o dia seguinte, na conta da luz que ainda não tinha pago. Pensei que, apesar de tudo ser um pouco repetitivo, tinha sorte. Tinha um marido que me amava, uma filha saudável, um emprego estável. Não era o casamento apaixonado dos filmes, mas era real. Era nosso.

Antes de adormecer, o Tiago murmurou qualquer coisa que não percebi bem. Acho que disse “boa noite”. Apertei-lhe a mão que estava pousada na minha barriga e fechei os olhos.

Amanhã seria igual. E isso, naquela altura, parecia-me uma coisa boa.





**Capítulo 2 – Pequenos Sinais**

Nos dias seguintes, nada de grave aconteceu. A vida continuou como sempre. Mas havia coisas pequenas. Coisas tão pequenas que, se eu as tivesse contado a alguém, soariam ridículas.

Na terça-feira, por exemplo, cheguei mais cedo do escritório. A Inês ainda estava na escola e o Tiago estava na sala, sentado no sofá com o computador portátil nas pernas. Quando entrei, ele fechou o ecrã depressa demais. Não foi um movimento brusco, nada dramático. Foi só um clique rápido, quase automático, como quem não quer que vejam o que estava a fazer.

— Estás em casa cedo — disse ele, levantando-se para me beijar.

— Tinha uma reunião cancelada. O que estavas a ver?

— Nada de especial. Um relatório chato de um cliente.

Sorri e não insisti. O Tiago trabalhava muitas vezes em casa e eu sabia que alguns relatórios eram mesmo aborrecidos. Ainda assim, fiquei com uma sensação estranha no peito durante uns segundos. Desapareceu logo que pus a pasta no chão e fui à cozinha beber água.

Na quarta-feira foi o telemóvel. Estávamos os três à mesa a jantar — frango grelhado e salada —, quando o telemóvel dele vibrou. Ele olhou para o ecrã, leu a mensagem e virou o aparelho para baixo, com o ecrã contra a mesa. Fez aquilo tão naturalmente que quase não dei por isso. Mas dei.

— Algum problema no trabalho? — perguntei, mais por dizer alguma coisa.

— Não, não. Só o grupo dos antigos da faculdade. Estão a marcar um jantar.

Acenei com a cabeça e continuei a comer. A Inês contou-nos que tinha tido uma discussão com uma colega por causa de um lápis de cor e o Tiago riu-se no sítio certo. Tudo normal. Ainda assim, reparei que ele não voltou a pegar no telemóvel enquanto estávamos à mesa. Costumava deixá-lo ao lado do prato, a consultar de vez em quando. Naquela noite, deixou-o virado para baixo até acabarmos de comer.

Na quinta-feira foi mais evidente.

Tínhamos combinado ver um filme depois de a Inês ir dormir. Eu pus o pijama, arrumei a cozinha e sentei-me no sofá por volta das onze. O Tiago disse que ia só “ver uma coisa rápida no computador” e que depois vinha. Eu esperei. Pus o filme em pausa. Passaram vinte minutos. Depois meia hora. Quando ele finalmente apareceu no quarto, já eram quase as doze e eu estava quase a adormecer.

— Desculpa — murmurou, deitando-se ao meu lado. — Perdi a noção do tempo.

— Estavas a trabalhar?

Ele hesitou uma fração de segundo antes de responder.

— Sim. Um problema que surgiu de repente.

Deitei-me de lado, de costas para ele, e não disse mais nada. Não era mentira. O Tiago trabalhava mesmo muitas horas. Mas havia qualquer coisa na forma como ele disse aquilo — na pequena hesitação, na voz um pouco mais baixa — que me fez ficar acordada mais uns minutos depois de ele ter apagado a luz.

Na sexta-feira à noite aconteceu outra coisa.

Tínhamos acabado de nos deitar. Eu estava cansada, mas não demasiado. Aproximai-me dele, passei a mão pelo peito e beijei-lhe o pescoço. Ele correspondeu no início, mas depois parou. Disse que estava muito cansado e que preferia dormir. Não foi a primeira vez que ele recusava fazer amor. Acontecia de vez em quando, especialmente quando tinha dias stressantes no trabalho. Ainda assim, naquela noite, senti uma pontada de rejeição que não conseguia explicar bem.

— Está tudo bem? — perguntei, já com a luz apagada.

— Está, está. Só estou mesmo cansado.

Passei a mão pelo braço dele e não insisti. Adormeci pouco depois.

No sábado de manhã, enquanto tomávamos o pequeno-almoço, olhei para ele e pensei que talvez estivesse só a imaginar coisas. O Tiago parecia o mesmo de sempre. Calmo, presente, a ajudar a Inês a pôr a mesa. Sorriu-me quando lhe passei o pão. Beijou-me na bochecha antes de ir tomar duche.

Ainda assim, durante o fim de semana, reparei em mais dois pormenores.

No sábado à tarde, enquanto eu estava a arrumar a roupa, ele foi ao quarto e fechou a porta. Ficou lá dentro uns bons dez minutos. Quando saiu, eu estava no corredor. Ele pareceu surpreendido por me ver ali.

— Estavas à procura de alguma coisa? — perguntei.

— Não, não. Só ia buscar um casaco.

No domingo à noite, depois de a Inês ir dormir, ele voltou a ficar mais tempo no computador. Eu estava na sala a ver uma série sozinha. Quando fui à casa de banho, passei pela sala e vi que ele tinha o ecrã minimizado. Quando voltei, já tinha aberto outra coisa — parecia um site de notícias.

Não disse nada. Não fiz perguntas. Não era o tipo de pessoa que revistava o telemóvel do marido nem que fazia cenas por causa de portas fechadas. Confiava nele. Tínhamos catorze anos de casamento e nunca me tinha dado motivo para desconfiar.

Ainda assim, quando me deitei naquela noite, fiquei uns minutos a olhar para o teto no escuro, a pensar naquelas pequenas coisas que se tinham acumulado ao longo da semana. Não eram grandes. Não eram alarmantes. Mas estavam lá.

Pensei em perguntar-lhe diretamente se estava tudo bem. Pensei em dizer que ele parecia mais distraído ultimamente. Mas depois imaginei a conversa e pareceu-me dramática. O Tiago ia dizer que era só trabalho, eu ia acreditar e a vida ia continuar.

Adormeci com essa ideia na cabeça.

Na segunda-feira de manhã, enquanto preparava o lanche da Inês, olhei para o Tiago que estava a beber café ao balcão e pensei: *Está tudo bem. São só coisas pequenas. Toda a gente tem semanas assim.*

E acreditei nisso.

Pelo menos por mais uns dias.



**Capítulo 3 – A Pasta Esquecida**

Na quarta-feira seguinte, o meu computador decidiu morrer.

Acordei com ele a fazer um barulho estranho, como se estivesse a tossir. Liguei-o, esperei, e apareceu uma mensagem de erro que eu nunca tinha visto. Tentei reiniciar duas vezes. Nada. Às oito e meia da manhã, já estava a entrar em pânico. Tinha uma reunião importante às dez com um cliente que estava a processar o ex-marido por pensão de alimentos, e todos os documentos estavam guardados no disco do portátil.

O Tiago estava na cozinha a fazer torradas quando eu entrei, ainda de roupão, com o cabelo molhado e o telemóvel na mão.

— O meu computador morreu — disse, tentando manter a voz calma. — Preciso de usar o teu para aceder aos documentos da reunião.

Ele parou com a faca no ar por um segundo. Depois acenou com a cabeça.

— Claro. Está na sala. A palavra-passe é a mesma de sempre.

— Obrigada.

Não notei nada de estranho na altura. Só mais tarde é que me lembrei daquela pequena hesitação.

Levei o portátil dele para a mesa da sala de jantar e liguei-o. Enquanto esperava arrancar, mandei uma mensagem à Inês a dizer que a ia buscar mais tarde à escola. Depois abri o navegador e entrei no meu email de trabalho. Consegui descarregar os documentos de que precisava. Respirei aliviada.

Estava prestes a fechar o computador quando me lembrei que o Tiago tinha um documento antigo de um processo em que me tinha ajudado há uns meses — um modelo de contrato que eu precisava de consultar rapidamente. Disse-lhe que ia procurar na pasta de documentos dele.

Abri o Explorador de Ficheiros.

Vi as pastas habituais: Documentos, Transferências, Imagens, Trabalho. Cliquei em Trabalho. Havia várias subpastas organizadas por ano. Escolhi a de 2024 e procurei o nome do ficheiro que me lembrava. Não estava lá.

Abri outra pasta chamada “Antigos”. Também não.

Comecei a ficar impaciente. Abri uma pasta chamada “Backup 2023”. Nada de relevante.

Foi quando vi uma pasta mais abaixo, quase no fim da lista. Tinha um nome estranho: **“Trabalho Pessoal – Não Apagar”**. Não me lembrava de o Tiago alguma vez ter mencionado uma pasta com esse nome. Cliquei nela sem pensar muito.

Dentro havia apenas três coisas: duas pastas e um ficheiro de texto.

A primeira pasta chamava-se **“Vídeos”**.  
A segunda chamava-se **“Histórias”**.

Abri primeiro a de “Histórias”. Havia dezenas de ficheiros com nomes como:

- *Esposa com o amigo do marido – relato real*  
- *Queria ver a minha mulher com outro*  
- *Cuckold – primeira vez que ela saiu sozinha*  
- *Quero que ela me humilhe*  
- *A minha esposa goza com outro e eu limpo*

Senti um frio na barriga. Cliquei num deles por curiosidade. Era um texto longo, escrito em português. Li as primeiras linhas:

> “Há dois anos que sonho com isto. Quero ver a minha esposa a ser fodida por um homem mais novo, mais forte, enquanto eu fico sentado na cadeira do canto a observar. Quero que ela goze com ele de uma forma que nunca gozou comigo. Quero que depois ela me olhe nos olhos e me diga que o pau dele é muito melhor que o meu.”

Fechei o ficheiro depressa, como se tivesse queimado os dedos. O coração estava a bater-me descontrolado.

Abri outro. Este era mais curto:

> “Ela voltou para casa com o cheiro dele na pele. Eu ajoelhei-me e chupei-lhe a cona enquanto ela me contava como ele a tinha fodido. Depois ela sentou-se na minha cara e fez-me engolir tudo o que ele tinha deixado lá dentro. Foi a coisa mais excitante que já me aconteceu.”

Fechei também este. As mãos começaram a tremer.

Abri a pasta dos “Vídeos”.

Havia mais de cinquenta ficheiros. Os nomes eram ainda mais diretos:

- *Wife takes BBC while husband watches*  
- *Cuckold compilation 2024*  
- *Hotwife first time with bull – husband humiliated*  
- *Portuguese couple – wife fucks friend in front of husband*  
- *Small dick husband cleans up creampie*

Cliquei num vídeo quase sem pensar. O ecrã ficou preto durante dois segundos e depois apareceu uma mulher de uns trinta e poucos anos, loira, de joelhos na cama. Estava a chupar um homem negro, alto e musculado, que lhe segurava a cabeça com as duas mãos. Ao lado da cama, sentado numa cadeira, estava um homem mais velho, magro, com óculos. Estava completamente nu e masturbava-se devagar enquanto olhava. De vez em quando dizia frases baixas:

— Isso, amor… chupa bem o pau dele… mostra-me como gostas mais dele do que de mim…

A mulher tirou o pau da boca, olhou para o marido e sorriu de forma provocadora.

— O pau dele é muito maior que o teu — disse ela, com a voz rouca. — Queres ver ele a foder-me?

O homem da cadeira gemeu e assentiu com a cabeça.

Fechei o vídeo com o dedo a tremer no touchpad.

Abri outro. Este era mais curto. Uma mulher de cabelo escuro, parecida comigo na idade, estava de quatro na cama. Um homem mais novo penetrava-a por trás com força, enquanto o marido estava ajoelhado ao lado da cama, completamente vestido, a olhar. A mulher gemia alto. De vez em quando virava a cara para o marido e dizia:

— Olha como ele me fode… olha como eu gozo com ele… tu nunca me fizeste gozar assim…

O marido respondia baixinho:

— Sim, amor… usa-me… humilha-me…

Fechei também este. Senti o estômago revirar-se.

Abri mais um vídeo, já quase sem conseguir respirar direito. Era uma compilação. Várias cenas rápidas: mulheres a serem fodidas enquanto os maridos observavam, alguns a chorar, outros a masturbar-se, alguns a limpar com a boca depois. Em quase todas as cenas havia frases de humilhação. “O teu pau é pequeno”, “Ele fode-me melhor”, “Tu és só o meu marido, ele é quem me dá prazer”.

Fechei o computador com força.

Fiquei sentada à mesa da sala de jantar, a olhar para o portátil fechado. As mãos estavam geladas. Senti um gosto amargo na boca e uma sensação de náusea que subia pela garganta.

Não conseguia processar o que tinha acabado de ver.

Aquelas mulheres… aquelas frases… aquele homem na cadeira a olhar enquanto a mulher dele gozava com outro…  
E o Tiago tinha guardado tudo aquilo. Organizado. Com títulos. Com histórias escritas em português.

Ouvi o barulho da chave na porta da entrada.

O Tiago tinha voltado mais cedo do que eu esperava.

Entrei em pânico por dois segundos. Levantei-me depressa, peguei no portátil e levei-o para a secretária dele na sala. Tentei deixar tudo exatamente como estava antes. Quando ele entrou, eu estava de pé junto à janela, a fingir que olhava para o jardim.

— Já arranjaste o que precisavas? — perguntou, pousando as chaves na mesa.

A voz dele soou normal. Demasiado normal.

— Sim… sim, obrigada. Consegui descarregar os documentos.

Ele aproximou-se e beijou-me na face, como fazia sempre.

— Boa. Vou fazer um café. Queres?

— Não, obrigada. Tenho de ir.

Fui para o quarto buscar a mala e o casaco. As pernas tremiam-me. Quando passei por ele na cozinha, evitei olhar para o rosto dele. Tive medo que ele visse alguma coisa nos meus olhos.

— Até logo — disse, já com a mão na porta.

— Até logo, amor.

Saí de casa e entrei no carro. Fiquei sentada durante quase cinco minutos sem pôr o motor a trabalhar. As mãos agarravam o volante com força.

Não conseguia pensar com clareza.

Só conseguia ver aquelas imagens.  
Só conseguia ouvir aquelas frases.

O Tiago.  
O meu Tiago.  
O homem com quem eu dormia todas as noites.  
O pai da minha filha.

Queria gritar. Queria chorar. Queria voltar para dentro de casa e atirar-lhe o computador à cara.

Em vez disso, liguei o carro e fui para o trabalho.

Durante todo o caminho, só conseguia repetir uma frase na cabeça, uma e outra vez:

*Quem é este homem com quem eu vivo?*



**Capítulo 4 – A Confrontação**

Não consegui trabalhar direito o resto do dia.

Fiquei sentada à secretária a olhar para o ecrã sem ver nada. As imagens voltavam constantemente: a mulher loira de joelhos, o homem na cadeira a masturbar-se, as frases de humilhação, os vídeos de mulheres a serem fodidas enquanto os maridos assistiam. Tentei afastá-las, mas voltavam sempre.

Quando saí do escritório, às cinco e meia, ainda sentia o estômago embrulhado. Dirigi até casa no piloto automático. Parei num semáforo e, durante uns segundos, pensei em não ir para casa. Pensei em ir para um hotel, ou para casa da Joana, ou simplesmente dar voltas de carro até não conseguir pensar.

Mas a Inês estava à minha espera. Então fui.

Quando entrei, ela estava na sala a fazer os trabalhos de casa. O Tiago estava na cozinha a preparar o jantar. Beijou-me na face como sempre fazia. Eu deixei. Não consegui corresponder.

— Está tudo bem? — perguntou ele, baixinho, enquanto a Inês não ouvia.

— Sim. Só estou cansada.

Comi o jantar quase em silêncio. A Inês contou que tinha tido um teste de matemática e que achava que se tinha saído bem. Eu sorri e fiz as perguntas certas, mas a minha cabeça estava noutro lado. O Tiago olhava para mim de vez em quando com uma expressão preocupada. Eu evitava os olhos dele.

Depois de deitar a Inês, fui para o quarto. Fiquei sentada na beira da cama durante muito tempo, só a olhar para o chão. O Tiago entrou uns minutos depois, já de pijama.

— Alice? — chamou, hesitante. — Aconteceu alguma coisa?

Respirei fundo e levantei-me. Fui até à porta do quarto e fechei-a com cuidado. Depois virei-me para ele.

— Hoje de manhã usei o teu computador — disse, com a voz surpreendentemente calma. — O meu estava avariado.

Ele ficou quieto. Não disse nada.

— Estava à procura de um documento antigo que me tinhas ajudado a fazer. Abri várias pastas. E encontrei uma chamada “Trabalho Pessoal – Não Apagar”.

Vi o sangue sair-lhe da cara. Literalmente. Ficou branco como a parede.

— Alice…

— Havia vídeos. E histórias. Muitos. De mulheres a serem fodidas por outros homens enquanto os maridos assistiam. De humilhação. De maridos a limparem… — A voz falhou-me. — O que é que é isso, Tiago?

Ele sentou-se na beira da cama. Passou as mãos pelo rosto. Durante uns segundos não disse nada. Depois, com a voz baixa e rouca, respondeu:

— Eu… eu não queria que descobrisses assim.

A raiva subiu-me tão depressa que quase me cegou.

— Então querias que descobrisse de outra forma? — gritei, sem conseguir controlar o volume. — Querias contar-me? Ou preferias continuar a guardar isso tudo no computador enquanto dormias comigo todas as noites?

— Alice, por favor, baixa a voz…

— Não me digas para baixar a voz! — A voz saiu estridente. — Tu tens vídeos de mulheres a dizerem aos maridos que o outro homem é melhor! Tens histórias de maridos a serem humilhados! E tu guardas isso tudo! O que é que tu queres, Tiago? Queres que eu faça isso? Queres que eu vá para a cama com outro homem enquanto tu olhas?

Ele não respondeu imediatamente. Depois assentiu com a cabeça, uma vez, muito devagar.

— Sim — disse, quase num sussurro. — Eu… gosto da ideia.

Senti o chão fugir-me debaixo dos pés.

— Gostas da ideia — repeti, incrédula. — Gostas da ideia de me veres a ser fodida por outro homem?

— Não é só isso — disse ele, com a voz a tremer. — É… é mais complicado.

— Explica-me então. Explica-me como é que o meu marido, o pai da minha filha, gosta de imaginar a mulher dele a ser usada por outros homens.

Ele demorou muito tempo a responder. Quando falou, a voz estava baixa e cheia de vergonha.

— Começou há muitos anos. Ainda antes de te conhecer. Via vídeos… e comecei a fantasiar. Tentei parar. Jurei a mim próprio que ia deixar isso para trás quando nos casámos. E durante muito tempo consegui. Mas nos últimos anos… voltou mais forte. Não consigo controlar.

— E eu? — perguntei, com os olhos cheios de lágrimas. — Eu nunca te dei o que precisavas? Nunca foste feliz comigo?

— Fui! — respondeu ele depressa, levantando-se. — Fui feliz. Sou feliz. Amo-te, Alice. Amo-te de verdade. Mas há esta parte de mim que… que não desaparece.

— E achaste que era melhor esconder? Achaste que era melhor guardar vídeos e histórias no computador em vez de me dizeres?

— Tinha medo — admitiu. — Medo que me deixasses. Medo que me visses como um monstro. Medo de te magoar.

— Já me magoaste — disse eu, com a voz a quebrar. — Magoaste-me mais do que consigo explicar.

As lágrimas começaram a cair. Não consegui segurá-las. Sentei-me na cama e solucei. O Tiago aproximou-se, mas eu afastei-o com a mão.

— Não me toques.

Ele parou.

— Queres que eu vá embora? — perguntou, depois de uns segundos.

— Não sei o que quero — respondi, limpando o rosto com as costas da mão. — Não sei quem és. Durante catorze anos pensei que te conhecia. E agora descubro que tens isto dentro de ti… e que nunca me disseste nada.

— Eu tentei reprimir. Juro que tentei.

— Mas não conseguiste — completei por ele. — E agora queres que eu participe nisto.

Ele não negou.

Fiquei em silêncio durante muito tempo. O quarto estava tão quieto que se ouvia o tique-taque do relógio da mesinha-de-cabeceira.

— Preciso de dormir — disse finalmente, levantando-me. — Vou para o quarto de hóspedes.

— Alice…

— Não. Não quero falar mais esta noite.

Peguei no meu telemóvel e num cobertor extra do armário. Antes de sair do quarto, virei-me uma última vez.

— Amanhã falamos. Agora não consigo olhar para ti.

Saí e fechei a porta.

No quarto de hóspedes, deitei-me vestida em cima da cama e fiquei a olhar para o teto no escuro. As lágrimas voltaram, silenciosas desta vez.

Não conseguia parar de pensar em tudo o que tinha visto.  
Não conseguia parar de pensar nas frases que ele tinha guardado.  
Não conseguia parar de pensar que o homem com quem eu vivia há catorze anos gostava de me imaginar a ser fodida por outro enquanto ele observava.

Apertei o cobertor contra o peito e, pela primeira vez desde que nos casámos, adormeci sozinha num quarto diferente do meu marido.




**Capítulo 5 – “Quem és tu?”**

Acordei no quarto de hóspedes com o pescoço dorido e os olhos inchados. A luz da manhã entrava pelas cortinas entreabertas. Durante uns segundos, não me lembrei do que tinha acontecido. Depois tudo voltou de uma vez: os vídeos, as histórias, a cara do Tiago quando confessou, as frases que ele tinha guardado.

Sentei-me na cama e fiquei a olhar para as minhas mãos. Estavam a tremer ligeiramente.

Não quis tomar duche no quarto principal. Fui para a casa de banho do corredor, como se fosse uma estranha em minha própria casa. Quando saí, o Tiago já estava na cozinha. Ouvi-o a falar com a Inês. A voz dele soava normal. Como se nada tivesse acontecido.

Entrei na cozinha e ela correu para me abraçar.

— Bom dia, mãe!

— Bom dia, amor — respondi, beijando-lhe o topo da cabeça.

O Tiago olhou para mim por cima da cabeça da nossa filha. Tinha olheiras fundas e uma expressão cautelosa. Não disse nada. Eu também não.

Preparei o pequeno-almoço da Inês em silêncio. Quando ela foi para o quarto buscar a mochila, ele aproximou-se.

— Podemos falar hoje à noite? — perguntou baixinho.

— Não sei — respondi, sem o olhar. — Agora não consigo.

Ele assentiu e não insistiu.

Depois de levar a Inês à escola, fui para o trabalho. Tentei concentrar-me nos processos, nas reuniões, nos emails. Mas era impossível. A minha cabeça estava noutro lado.

A meio da manhã, fechei a porta do meu gabinete e sentei-me na cadeira a olhar para a parede.

*Quem é este homem?*

Era a pergunta que não parava de fazer a mim própria.

O Tiago que eu conhecia era calmo, responsável, um pouco reservado. Era o homem que me ajudava com as contas da casa, que ia às reuniões dos pais na escola da Inês, que me trazia chá quando eu estava constipada. Era o homem com quem eu fazia amor há catorze anos. O homem que me dizia “amo-te” quase todas as noites.

E agora descobria que esse mesmo homem guardava vídeos de mulheres a serem fodidas por outros homens enquanto os maridos assistiam. Que lia histórias de humilhação. Que fantasiava com isso.

*Será que ele nunca gostou de mim de verdade?*

A dúvida entrou-me na cabeça e instalou-se como uma coisa pesada.

Relembrei as nossas primeiras vezes. Quando nos conhecemos, o sexo era bom. Não era selvagem, mas era carinhoso e satisfatório. Com o tempo foi ficando mais calmo, mais previsível. Eu achava que era normal. Achava que era assim que os casamentos longos eram.

Mas agora perguntava-me: *E se para ele nunca foi suficiente? E se ele sempre quis mais e nunca teve coragem de pedir?*

Senti uma onda de humilhação tão forte que me arderam os olhos.

*Será que sou tão pouco mulher que ele precisa de imaginar outros homens a foderem-me?*

A frase repetia-se na minha cabeça como um eco.

Levantei-me e fui até à janela do gabinete. Olhei para o trânsito lá em baixo sem o ver realmente.

Pensei em todas as vezes que fizemos amor nos últimos anos. Quantas vezes eu tinha tomado a iniciativa? Quantas vezes ele parecia mais interessado do que eu? Quantas vezes eu tinha sentido que ele estava presente, mas não completamente?

*Será que ele estava a imaginar outra coisa?*

A ideia fez-me sentir suja. Como se todo o nosso casamento tivesse sido uma mentira.

À uma da tarde, a Joana mandou-me uma mensagem:

«Tudo bem? Pareces desaparecida.»

Respondi que estava ocupada com trabalho. Não tinha coragem de lhe contar ainda. Não sabia como dizer em voz alta o que tinha descoberto.

Quando cheguei a casa, a Inês estava no quarto a jogar. O Tiago estava na sala com o computador. Fechou-o depressa quando eu entrei. O gesto fez-me lembrar do que tinha visto no dia anterior e senti uma pontada de raiva.

Não falei com ele. Fui direto para o quarto, tirei o casaco e sentei-me na beira da cama.

Fiquei ali muito tempo, só a olhar para o chão.

Pensei em tudo o que tínhamos construído juntos: a casa, a filha, as férias, os planos de futuro. Pensei nas noites em que chorámos juntos quando a minha mãe morreu. Pensei nas vezes em que ele me segurou quando eu estava exausta do trabalho.

E depois pensei nas imagens que tinha visto no computador dele.

Não conseguia conciliar as duas coisas.

*Quem és tu, Tiago?*

A pergunta não saía da minha cabeça.

Será que o homem que amava nunca existiu realmente? Será que eu tinha passado catorze anos a dormir ao lado de um estranho que escondia uma parte enorme de si?

Ou será que ele era as duas coisas ao mesmo tempo? O marido calmo e o homem que fantasiava com a mulher dele a ser usada por outros?

Não sabia qual das hipóteses era pior.

À noite, depois de deitar a Inês, voltei para o quarto de hóspedes sem dizer uma palavra. O Tiago não tentou falar comigo. Acho que percebeu que eu ainda não estava pronta.

Deitei-me vest Vestida e apaguei a luz.

No escuro, as imagens voltaram. As mulheres dos vídeos. As frases das histórias. A cara do Tiago quando confessou.

Apertei o travesseiro contra o peito e, pela segunda noite seguida, chorei até adormecer.




**Capítulo 6 – A Amiga**

Na sexta-feira de manhã, depois de passar mais uma noite no quarto de hóspedes, percebi que não ia conseguir continuar assim. Precisava de falar com alguém. Alguém que não fosse o Tiago.

Mandei uma mensagem à Joana às nove horas:

«Preciso de te ver. Hoje. É importante.»

Ela respondeu dois minutos depois:

«Café da esquina às 13h? Posso sair mais cedo do trabalho.»

Eu respondi apenas: «Obrigada.»

Passei a manhã a fingir que trabalhava. À uma e dez, estava sentada numa mesa no fundo do café, a mexer no telemóvel sem ver nada. Quando a Joana chegou, vestida com o fato preto que usava no escritório, olhou para mim e soube logo que algo estava muito errado.

— O que aconteceu? — perguntou, sentando-se à minha frente.

Pedi um café com leite e esperei que a empregada se afastasse. Depois respirei fundo e comecei a contar.

Contei tudo. Desde o computador avariado até à pasta escondida. Descrevi os vídeos que tinha visto, as histórias, as frases de humilhação. Contei como o Tiago tinha confessado que gostava da ideia de me ver com outro homem. Falei da forma como tinha dormido no quarto de hóspedes nas últimas noites e de como não conseguia olhar para ele sem sentir nojo e confusão ao mesmo tempo.

A Joana ouviu tudo sem me interromper. Quando acabei, ficou em silêncio durante uns segundos, a mexer no colar que trazia ao pescoço.

— Caralho — disse finalmente, baixinho.

Bebeu um gole do café e olhou para mim.

— E tu? O que é que sentes?

— Não sei — respondi, com a voz cansada. — Raiva. Vergonha. Confusão. Sinto que não conheço o homem com quem vivo há catorze anos.

— E o que é que ele quer exatamente? — perguntou ela, direta como sempre.

— Quer que eu… experimente. Com outro homem. Enquanto ele observa.

A Joana arqueou as sobrancelhas.

— E tu? Tens vontade de experimentar?

— Não! — respondi depressa, talvez demasiado depressa. — Claro que não. É… é doentio.

Ela inclinou-se um pouco para a frente.

— Alice, vou ser muito direta contigo, porque és minha amiga há quase vinte anos. O que o Tiago tem é um fetiche. Há muita gente com fetiches parecidos. Não é tão raro quanto pensas.

— Isso não o torna menos estranho — respondi, irritada.

— Não. Mas também não o torna um monstro. Ele escondeu-te durante anos. Isso é errado. Mas agora que confessou… o que é que queres fazer?

Fiquei em silêncio. A Joana continuou.

— Tens duas opções principais: ou acabas o casamento, ou tentas perceber se consegues lidar com isto. Não estou a dizer que deves aceitar. Estou só a dizer que, se quiseres, podes explorar o assunto antes de tomar uma decisão definitiva.

— Explorar como? — perguntei, incrédula.

— Falando com ele. Perguntando o que exatamente ele imagina. Se são só fantasias ou se ele quer mesmo ver acontecer. E, mais importante, perguntando a ti mesma o que sentes quando pensas nisso.

— Sinto nojo — disse eu, sem hesitar.

— Tudo bem. Mas às vezes o nojo e a excitação estão muito próximos. Já pensaste nisso?

Olhei para ela, chocada.

— Joana…

— Desculpa — disse ela, levantando as mãos. — Talvez seja cedo demais para falar nisso. Mas quero que saibas que, seja qual for a tua decisão, eu estou do teu lado. Se quiseres acabar, acabas. Se quiseres tentar perceber o que sentes, também podes. Não tens de decidir tudo hoje.

Bebi o resto do café sem saber o que dizer.

— E se eu descobrir que… gosto? — perguntei, quase num sussurro. — O que é que isso diz sobre mim?

A Joana deu de ombros.

— Diz que és humana. E que tens desejos que talvez nunca tenhas explorado. Não te torna uma pessoa má. Nem a ele.

Ficámos mais uns minutos em silêncio. Depois ela perguntou:

— Queres que eu fale com ele? Ou preferes resolver sozinha?

— Ainda não sei — respondi. — Só sei que não consigo continuar a fingir que está tudo bem.

A Joana estendeu a mão por cima da mesa e apertou a minha.

— Então não finjas. Seja o que for que decidas fazer, faz de forma honesta. Com ele e contigo mesma.

Quando saí do café, o sol estava a bater forte. Fiquei parada no passeio durante uns segundos, a olhar para o trânsito.

Pela primeira vez desde que tinha descoberto a pasta, sentia que alguém me tinha ouvido sem me julgar imediatamente. E isso, estranhamente, assustava-me quase tanto quanto tudo o resto.

Porque, no fundo, uma parte de mim — muito pequena, mas existente — tinha ficado a pensar nas palavras da Joana.

*E se eu descobrir que gosto?*





**Capítulo 7 – A Primeira Conversa Séria**

Cheguei a casa depois das oito. A Inês já tinha jantado e estava a ver televisão na sala. O Tiago estava na cozinha a lavar a louça. Quando entrei, olhou para mim com uma expressão de esperança e medo ao mesmo tempo.

— A Inês já fez os trabalhos de casa — disse ele, baixinho. — Eu pus-lhe o jantar.

— Obrigada — respondi, sem emoção.

Durante o resto da noite, comportámo-nos como dois estranhos que partilhavam a mesma casa. Eu ajudei a Inês a preparar-se para dormir, li-lhe uma história e apaguei a luz do quarto dela. Quando saí, o Tiago estava à espera no corredor.

— Podemos falar? — perguntou.

— Sim — respondi. — Mas não no quarto. Na cozinha.

Sentámo-nos à mesa da cozinha, um de frente para o outro. Havia uma distância grande entre nós. Literalmente e de todas as outras formas.

Ele começou por falar baixo, quase como se tivesse medo de que a Inês ouvisse, mesmo estando no quarto dela.

— Quero que saibas que nunca te traí. Nunca estive com outra mulher. Nunca fiz nada físico. Tudo o que tinha era… fantasias. E vídeos.

— E histórias — completei, fria.

— Sim. E histórias.

Fiquei em silêncio, à espera que ele continuasse.

— Começou quando eu era adolescente. Tinha uns dezasseis ou dezassete anos. Via pornografia normal no início… e depois comecei a ver coisas diferentes. Não sei bem porquê. Havia qualquer coisa na ideia de uma mulher ser desejada por outro homem… e o marido a assistir… que me excitava. Tentei parar várias vezes. Quando te conheci, jurei a mim próprio que ia deixar isso para trás. E durante muitos anos consegui.

— E depois? — perguntei.

— Depois da Inês nascer… não sei. As coisas mudaram. Tu estavas mais cansada, o sexo era menos frequente, e as fantasias voltaram mais fortes. Comecei a ver vídeos outra vez. Depois a guardar histórias. Nunca pensei que fosses descobrir.

— Mas descobri — disse eu. — E agora?

Ele olhou para as mãos, que estavam pousadas em cima da mesa.

— Agora depende de ti. Se quiseres que eu vá embora, eu vou. Se quiseres que eu pare com isto, eu tento. Mas… não sei se consigo parar completamente. Já tentei antes.

Senti uma onda de raiva subir-me pelo peito.

— Então estás a dizer que isto faz parte de ti? Que não consegues ser o meu marido sem ter estas fantasias?

— Não sei — respondeu ele, honestamente. — Só sei que as tenho desde há muito tempo. E que te amo. As duas coisas existem ao mesmo tempo.

— E queres que eu participe nisto — disse eu, sem rodeios. — Queres que eu vá para a cama com outro homem enquanto tu olhas.

Ele demorou uns segundos a responder.

— Sim — admitiu. — Eu gosto da ideia. Gosto muito. Mas só se tu também quiseres. Se for só por minha causa, não quero.

— E se eu nunca quiser? — perguntei. — Se eu achar isto nojento e humilhante? O que é que fazes?

— Aceito — disse ele. — Tento viver sem isso. Ou… ou vemos o que acontece.

Olhei para ele durante muito tempo. O homem que estava à minha frente parecia o Tiago de sempre e, ao mesmo tempo, um completo estranho.

— Durante catorze anos dormi ao teu lado a pensar que te conhecia — disse eu, com a voz baixa. — E agora descubro que tens uma parte tão grande de ti que nunca me mostrastes. Como é que eu posso confiar em ti outra vez?

— Eu sei que magoei-te — respondeu ele. — E lamento. Lamento profundamente. Se pudesse voltar atrás, teria falado contigo antes. Mas tinha medo.

— Medo de quê?

— Medo que me deixasses. Medo que me visses como um pervertido. Medo de te perder.

— E agora? — perguntei. — Agora que eu sei… o que é que queres realmente?

Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez naquela conversa.

— Quero que sejas feliz. E quero continuar casado contigo. Se isso significar viver sem estas fantasias, eu tento. Se significar… explorar isto contigo, também quero. Mas só se for algo que tu também queiras descobrir.

Fiquei em silêncio durante muito tempo.

— E agora queres que eu faça isso por ti? — perguntei finalmente, repetindo a pergunta que tinha feito no dia da descoberta.

Ele abanou a cabeça.

— Não. Quero que faças porque queres. Ou que não faças. A decisão é tua. Eu só… só te estou a ser honesto.

Levantei-me da mesa. As pernas estavam a tremer.

— Preciso de mais tempo — disse eu. — Não consigo decidir nada agora.

— Eu espero — respondeu ele. — O tempo que for preciso.

Fui para o quarto de hóspedes sem dizer mais nada. Antes de fechar a porta, virei-me uma última vez.

— Amanhã à noite quero que me mostres tudo — disse eu. — Todos os vídeos. Todas as histórias. Quero ver exatamente o que tu gostas. Sem mentiras.

Ele pareceu surpreendido, mas assentiu.

— Está bem.

Fechei a porta e deitei-me na cama, de olhos abertos no escuro.

Pela primeira vez, tinha pedido para ver mais.

E isso assustava-me mais do que qualquer outra coisa.





**Capítulo 8 – Noites em Branco**

Não consegui dormir.

Depois de apagar a luz no quarto de hóspedes, fiquei deitada a olhar para o teto durante quase uma hora. A cabeça não parava. As palavras do Tiago repetiam-se. As imagens dos vídeos que tinha visto no computador dele também. E a minha própria voz, quando lhe disse que queria ver tudo.

À uma da manhã, levantei-me. Fui à sala, peguei no portátil dele e trouxe-o para o quarto de hóspedes. Sentei-me na cama, com as costas encostadas à cabeceira, e abri o navegador.

Durante uns minutos, fiquei só a olhar para a barra de pesquisa. Depois escrevi: **cuckold**.

Apareceram milhares de resultados. Cliquei no primeiro vídeo que surgiu.

Era uma mulher de cabelo escuro, parecida comigo, de joelhos na cama. Um homem mais novo e musculado estava atrás dela, a penetrá-la com força. Ao lado, sentado numa poltrona, estava o marido. Estava nu e masturbava-se devagar. De vez em quando dizia:

— Isso, amor… goza no pau dele… mostra-me como ele te fode melhor que eu…

A mulher gemia alto, virava a cara para o marido e sorria.

— O pau dele é muito maior que o teu… tu nunca me fizeste gozar assim…

Fechei o vídeo com o coração a bater descontrolado. Senti nojo. Senti raiva. E senti uma coisa pior: uma excitação quente e húmida entre as pernas que me fez corar de vergonha.

Abri outro vídeo. Desta vez era uma compilação. Várias cenas rápidas. Em quase todas, as mulheres olhavam para os maridos enquanto eram fodidas e diziam coisas cruéis:

— Olha como ele me fode… olha como eu gozo com ele… tu és só o meu marido, ele é quem me dá prazer de verdade…

Nalgumas cenas, os maridos ajoelhavam-se e limpavam as mulheres com a boca depois de elas terem sido gozadas dentro. Noutro vídeo, um homem pedia à mulher para lhe contar todos os detalhes enquanto ela estava deitada ao lado dele.

Fechei o portátil e respirei fundo. As mãos estavam a tremer.

Abri-o outra vez.

Desta vez procurei histórias escritas. Li uma longa, sobre um marido que convencia a mulher a sair com um colega de trabalho. Quando ela voltava, ele ajoelhava-se e chupava-a enquanto ela lhe contava tudo. No final da história, a mulher dizia ao marido que ia começar a fazer aquilo regularmente e que ele só podia assistir ou limpar.

Fechei os olhos. Senti o corpo quente. Apertei as coxas uma contra a outra sem querer.

*O que é que se passa comigo?*

Abri mais um vídeo. Desta vez era uma mulher a ser fodida por dois homens enquanto o marido observava. Ela olhava para ele e dizia:

— Vês como eles me usam? Vês como eu gosto de ser a puta deles?

O marido respondia:

— Sim, amor… usa-me… humilha-me…

Fechei o vídeo e pus o portátil de lado. Levantei o vestido de noite e enfiei a mão dentro das cuecas. Estava molhada. Muito molhada. Toquei-me devagar, quase sem querer, e soltei um gemido baixo quando os dedos encontraram o clitóris.

Parei imediatamente.

Sentei-me na cama, com as mãos a tremer e o coração aos saltos. Senti-me envergonhada. Senti-me traidora. Senti-me excitada de uma forma que nunca tinha sentido antes.

*O que é que eu estou a fazer?*

Apaguei o histórico do navegador, fechei o portátil e pus-o no chão. Deitei-me de lado, de cara para a parede, e apertei as pernas com força.

Mas o corpo não me deixava em paz. A excitação não passava. As imagens voltavam. As vozes das mulheres dos vídeos. As frases de humilhação. A ideia de o Tiago a olhar enquanto outro homem me tocava.

Masturbei-me em silêncio, com a cara enterrada no travesseiro, gozando depressa e com força. Quando acabei, chorei.

Chorei de vergonha. Chorei de confusão. Chorei porque, pela primeira vez na vida, tinha gozado a imaginar algo que me repugnava.

Adormeci às quatro da manhã, exausta.

Na noite seguinte, repetiu-se.

Não planeei. Não queria. Mas depois de deitar a Inês, voltei a trazer o portátil para o quarto de hóspedes. Desta vez procurei especificamente vídeos com mulheres parecidas comigo. Mulheres de trinta e poucos anos, cabelo castanho, corpo normal. Vi uma mulher a ser fodida por trás enquanto o marido estava ajoelhado ao lado da cama e beijava os pés dela. Outra em que a mulher ordenava ao marido que se masturbasse sem gozar enquanto ela gozava com o outro homem.

Gozei outra vez. Desta vez mais devagar. Mais consciente.

E depois odiei-me por isso.

Na terceira noite, já não chorei. Fiquei deitada no escuro depois de gozar, a olhar para o teto, e pensei:

*O que é que está a acontecer comigo?*

Não tinha resposta.

Só sabia que, pela primeira vez desde que tinha descoberto a pasta, já não sentia apenas nojo.

Sentia também curiosidade.

E isso assustava-me mais do que qualquer coisa.






**Capítulo 9 – A Inês no Meio**

Na segunda-feira de manhã, a Inês reparou que algo estava errado.

Estávamos os três à mesa da cozinha. Eu tinha dormido no quarto de hóspedes mais uma vez. O Tiago tinha feito torradas e café, como fazia quase todas as manhãs. A Inês estava a comer o iogurte com cereais quando olhou primeiro para mim, depois para o pai, e franziu o sobrolho.

— Porque é que vocês não se beijam? — perguntou, direta como só uma criança de onze anos sabe ser.

O Tiago parou com a chávena a meio caminho da boca. Eu senti o rosto a aquecer.

— Beijamo-nos, amor — respondi, tentando sorrir. — Só estamos um pouco cansados.

— Mas vocês costumam beijar-se de manhã. E o pai costuma beijar-te na testa. Hoje não fez.

O Tiago olhou para mim. Eu olhei para o prato.

— Hoje é um dia diferente — disse ele, com a voz calma. — Mas está tudo bem.

A Inês não pareceu convencida. Continuou a comer o iogurte, mas de vez em quando levantava os olhos e olhava para nós com aquela expressão que ela fazia quando sentia que os adultos estavam a esconder alguma coisa.

Terminámos o pequeno-almoço em silêncio. Quando a Inês foi ao quarto buscar a mochila, o Tiago aproximou-se de mim.

— Temos de ter mais cuidado — disse baixinho. — Ela está a notar.

— Eu sei — respondi, sem o olhar.

— Alice… eu não quero que ela sofra por causa disto.

— Nem eu — disse eu, com mais dureza do que pretendia. — Mas também não quero fingir que está tudo bem quando não está.

Ele assentiu e não respondeu.

Levei a Inês à escola como sempre. No carro, ela ficou quieta durante quase todo o caminho. Só quando estávamos quase a chegar é que perguntou:

— Mãe… o pai e tu estão a discutir?

Senti o coração apertar.

— Não estamos a discutir, amor. Só temos coisas de adultos para resolver.

— Tipo o que?

— Tipo trabalho. E contas da casa. Coisas chatas.

Ela pareceu aceitar a resposta, mas quando saí do carro para a beijar, abraçou-me mais forte do que o normal.

— Amo-te — disse ela.

— Eu também te amo — respondi, com a voz a falhar.

Quando voltei para o carro, fiquei sentada durante uns minutos antes de arrancar. As mãos agarravam o volante com força.

*O que é que estamos a fazer?*

Durante todo o dia, a imagem da Inês a perguntar se estávamos a discutir não me saiu da cabeça. Pensei nela a crescer numa casa onde os pais dormiam em quartos separados. Pensei nela a perguntar porque é que a mãe e o pai já não se beijavam de manhã. Pensei em todas as crianças que eu tinha visto nos processos de divórcio no escritório — as que ficavam partidas, as que se sentiam culpadas, as que aprendiam demasiado cedo que o amor podia acabar.

E tudo isto por causa de uma pasta no computador do Tiago.

Senti uma raiva tão forte que tive de fechar os olhos e respirar fundo.

Não era justo.  
Não era justo para a Inês.  
Não era justo para mim, que tinha construído uma vida inteira com um homem que escondia uma parte tão grande de si.  
E não era justo para o Tiago, que carregava aquilo sozinho há tantos anos.

Quando cheguei a casa à noite, a Inês estava no quarto a fazer os trabalhos de casa. O Tiago estava na sala. Quando me viu, levantou-se.

— Como correu o dia? — perguntou.

— Normal — respondi, sem grande vontade de conversar.

Ele hesitou.

— A Inês perguntou-me se nós íamos separar-nos.

Senti o estômago revirar-se.

— O que é que lhe disseste?

— Disse que não. Que estávamos só a passar por um momento difícil, mas que a amávamos muito e que íamos resolver.

Assenti. Não sabia o que dizer.

Mais tarde, depois de deitar a Inês, sentei-me na cozinha sozinha. O Tiago veio ter comigo.

— Não quero que ela sofra por nossa causa — disse ele, sentando-se à minha frente.

— Nem eu — respondi. — Mas também não quero viver uma mentira para a proteger.

— Então o que é que fazemos?

Olhei para ele durante muito tempo.

— Ainda não sei — admiti. — Mas sei que, seja o que for que decidirmos, temos de pensar nela primeiro.

Ele assentiu.

Fiquei mais uns minutos na cozinha depois de ele ir para o quarto. Olhei para as fotografias da Inês que estavam coladas no frigorífico. A dela com três anos no jardim. A do dia em que entrou para a escola. A do último aniversário.

Senti os olhos a arder.

*O que é que estamos a fazer à nossa filha?*

Não tinha resposta.

Só sabia que, pela primeira vez, a culpa estava a pesar mais do que a raiva.





**Capítulo 10 – O Ultimato**

Na quarta-feira à noite, depois de deitar a Inês, o Tiago pediu-me para falar.

Eu estava na cozinha a preparar um chá que não tinha vontade de beber. Ele sentou-se à mesa e ficou a olhar para as mãos durante uns segundos antes de começar.

— Alice, eu sei que estás a sofrer — disse ele, com a voz baixa. — E sei que o que descobriste te magoou muito. Eu lamento. Lamento de verdade.

Não respondi. Continuei a mexer o chá.

— Mas também não podemos continuar assim para sempre — continuou ele. — Eu a dormir no quarto, tu no quarto de hóspedes. A Inês a notar que algo está errado. Isto não é vida.

— Eu sei — respondi, seca.

Ele respirou fundo.

— Quero que saibas que, se quiseres acabar o casamento, eu aceito. Não vou tentar convencer-te a ficar. Se achares que não consegues viver comigo depois disto, eu vou-me embora. Posso arranjar outro sítio para viver e vemos como fazemos com a Inês.

Senti o peito apertar. A forma como ele disse aquilo — tão calmo, tão razoável — fez-me sentir ainda pior.

— Mas se quiseres ficar… — continuou ele — eu estou disposto a fazer tudo do teu jeito. Podemos definir regras. Podemos ir devagar. Podemos parar quando quiseres. Eu faço o que tu quiseres, Alice. Só preciso de saber o que queres.

Olhei para ele pela primeira vez naquela conversa.

— Então é assim? — perguntei, com a voz a tremer de raiva. — Ou eu aceito o teu fetiche e tentamos, ou eu acabo o casamento?

— Não é isso que eu estou a dizer…

— É exatamente isso que estás a dizer! — interrompi, levantando a voz. — Estás a pôr-me contra a parede. Ou eu participo nisto ou perco a minha família. É isso?

— Não — respondeu ele, parecendo genuinamente surpreendido. — Não é isso que eu quero. Eu só… só estou a tentar ser honesto. Não quero que fiques comigo por obrigação. E também não quero que fiques a sofrer em silêncio.

— Então dá-me tempo! — gritei. — Dá-me tempo para processar! Dá-me tempo para decidir o que eu quero sem me pores pressão!

Ele ficou em silêncio. Depois falou mais baixo.

— Eu estou a dar-te tempo. Há quase duas semanas que te dou tempo. Só estou a dizer que não podemos continuar a viver assim indefinidamente. A Inês já está a notar. E eu também estou a sofrer.

— Tu estás a sofrer? — perguntei, incrédula. — Tu és que tens o fetiche. Tu é que guardaste vídeos e histórias durante anos. Eu é que descobri tudo de repente. Eu é que estou a tentar perceber quem é o homem com quem casei. E agora vens-me dizer que estás a sofrer porque eu preciso de tempo?

Ele baixou a cabeça.

— Tens razão — murmurou. — Desculpa.

Fiquei em pé, com as mãos a tremer.

— Eu não sei o que quero — disse eu, com a voz a quebrar. — Não sei se consigo aceitar isto. Não sei se consigo perdoar-te por teres escondido durante tanto tempo. E não sei se quero viver num casamento onde o meu marido precisa de me imaginar com outro homem para se sentir excitado.

— Eu percebo — disse ele.

— Não, não percebes — respondi. — Porque se percebesses, não me estarias a pressionar agora.

Fui até à porta da cozinha e virei-me uma última vez.

— Preciso de tempo — repeti. — E não me peças mais nada até eu estar pronta para falar.

Saí da cozinha e fui para o quarto de hóspedes. Fechei a porta com mais força do que pretendia.

Deitei-me na cama vestida e fiquei a olhar para o teto no escuro.

Sentia-me encurralada.  
Sentia-me culpada.  
Sentia-me furiosa.

E, no fundo de tudo isto, sentia também uma coisa que me assustava: uma parte muito pequena de mim já estava a pensar no que seria se eu dissesse sim.

Apertei o travesseiro contra o peito e fechei os olhos com força.

*Preciso de tempo*, repeti para mim mesma.

Mas sabia que o tempo estava a acabar.





**Capítulo 11 – A Curiosidade**

Passaram-se três dias depois daquela conversa na cozinha.

Eu continuava a dormir no quarto de hóspedes. O Tiago e eu falávamos o mínimo possível quando a Inês estava presente. Quando ela não estava, evitávamo-nos.

Mas algo estava a mudar dentro de mim.

Não era só raiva. Não era só mágoa. Havia outra coisa. Uma coisa que eu não queria admitir, nem a mim mesma.

Na quinta-feira à noite, depois de deitar a Inês, fechei-me no quarto de hóspedes com o portátil. Não planeei. Não quis. Mas acabei por abrir o navegador outra vez.

Desta vez não procurei “cuckold”. Procurei outra coisa.

Procurei **hotwife**.

Os vídeos eram diferentes. As mulheres pareciam mais no controlo. Eram elas que escolhiam os homens. Eram elas que definiam as regras. Em muitos vídeos, o marido estava presente, mas era a mulher quem mandava.

Vi uma mulher de cabelo castanho, parecida comigo, a ser fodida por um homem mais novo enquanto o marido estava sentado numa cadeira. A mulher olhava para o marido e dizia:

— Vês como ele me fode? Vês como eu gosto?

O marido respondia:

— Sim, amor… usa-o… goza nele…

Eu toquei-me enquanto via. Desta vez não parei. Gozei rápido, com a mão dentro das cuecas, mordendo o lábio para não fazer barulho.

Quando acabei, fiquei deitada a olhar para o teto, com o coração aos saltos e uma sensação de vergonha tão forte que me doeu no peito.

*O que é que eu estou a fazer?*

Na noite seguinte, voltei a fazer o mesmo. Desta vez imaginei. Não vi vídeos. Fechei os olhos e imaginei.

Imaginei que estava numa cama de hotel. Havia um homem mais novo, forte, que me beijava o pescoço enquanto me tirava a roupa. E o Tiago estava sentado numa cadeira ao lado da cama, a olhar. Eu olhava para ele enquanto o outro homem me penetrava. E em vez de sentir nojo, sentia… poder.

Gozei outra vez. Mais forte do que da primeira vez.

Depois chorei.

Na sexta-feira, não aguentei mais. Liguei à Joana depois do almoço.

— Preciso de te ver — disse eu, sem rodeios.

— Hoje? — perguntou ela.

— Sim. Agora, se puderes.

Encontrámo-nos no mesmo café de antes. Eu cheguei primeiro. Quando ela sentou, olhou para mim e soube logo que algo tinha mudado.

— Conta — disse ela, sem perder tempo.

Contei-lhe. Contei que tinha voltado a ver vídeos. Contei que tinha começado a fantasiar sozinha. Contei que gozava a imaginar o Tiago a olhar enquanto outro homem me tocava. E contei que isso me fazia sentir envergonhada, confusa e… excitada ao mesmo tempo.

A Joana ouviu tudo sem me interromper. Quando acabei, ficou em silêncio durante uns segundos.

— Então… já não é só nojo — disse ela, finalmente.

— Não — admiti, com a voz baixa. — E isso assusta-me.

— Porque achas que te assusta?

— Porque se eu gostar disto… o que é que isso diz sobre mim? Sobre o nosso casamento? Sobre quem eu sou?

A Joana inclinou-se para a frente.

— Diz que és uma mulher com desejos. E que talvez nunca tenhas tido espaço para os explorar. Não te torna má. Não te torna uma má mãe. E não significa que tenhas de fazer nada que não queiras.

— Mas eu estou a gostar de imaginar — disse eu, quase num sussurro. — E isso… isso não é normal.

— O que é “normal”, Alice? — perguntou ela. — Tu passaste catorze anos a viver num casamento onde o teu marido escondia uma parte enorme de si. Agora estás a descobrir uma parte de ti que também estava escondida. Isso não é errado. É só… novo.

Fiquei em silêncio durante muito tempo.

— E se eu quiser experimentar? — perguntei, finalmente. — E se eu quiser ver como é?

A Joana deu de ombros.

— Então experimentas. Com regras. Com segurança. Com alguém de confiança. Ou então decides que não queres e vives com isso. Mas pelo menos descobres.

Quando saí do café, o sol já estava a baixar. Fiquei parada no passeio, a olhar para o telemóvel.

Tinha uma mensagem do Tiago:

«A Inês está a perguntar porque é que tu não dormes no nosso quarto. O que é que eu lhe digo?»

Não respondi.

Em vez disso, guardei o telemóvel no bolso e comecei a andar para casa.

Pela primeira vez desde que tinha descoberto a pasta, não sabia se queria acabar o casamento.

Ou se queria descobrir até onde eu era capaz de ir.





**Capítulo 12 – Regras**

Na segunda-feira à noite, depois de deitar a Inês, sentei-me à mesa da cozinha e disse ao Tiago:

— Quero falar sobre regras.

Ele pareceu surpreendido, mas sentou-se à minha frente sem fazer perguntas. Tinha olheiras fundas e parecia mais magro do que há duas semanas.

— Está bem — respondeu, calmo. — O que queres saber?

Respirei fundo. Tinha passado o dia inteiro a pensar nisto. Tinha até feito uma lista mental.

— Se eu decidir experimentar… quero definir tudo antes. Nada de surpresas. Nada de “vamos ver no momento”. Quero regras claras.

Ele assentiu.

— Diz-me quais são as tuas.

— Primeiro: eu escolho o homem. Sempre. Tu não sugeres ninguém. Não escolhes. Eu decido.

— Certo.

— Segundo: tu só observas. Não participas fisicamente. Não tocas em mim enquanto estiver com outra pessoa. A menos que eu peça.

Ele hesitou um segundo, mas depois concordou.

— Terceiro: nada de humilhação verbal. Não quero que me chames nomes. Não quero que digas que sou uma puta ou que o outro é melhor. Isso não.

— Está bem.

— Quarto: se eu disser “para”, paramos imediatamente. Sem discussão. Sem “só mais um pouco”. Para tudo.

— Claro.

— Quinto: proteção sempre. Preservativo obrigatório. Eu não quero engravidar de outra pessoa. E quero fazer análises antes e depois.

Ele assentiu outra vez.

— Sexto: a Inês nunca pode saber. Nunca. Nem agora, nem daqui a dez anos. Isto fica entre nós.

— Obviamente.

Fiquei em silêncio durante uns segundos, a pensar se havia mais alguma coisa.

— Sétimo… — continuei, mais devagar. — Se eu decidir que não quero continuar depois da primeira vez, paramos. Para sempre. Sem pressão. Sem “mas eu gosto disto”. Se eu disser que chega, chega.

— Aceito — disse ele, sem hesitar.

Olhei para ele.

— Agora diz-me o que tu queres. Seja honesto.

Ele demorou um pouco a responder. Quando falou, a voz estava baixa.

— Quero ver-te com outro homem. Quero ver-te a gozar de uma forma que talvez nunca tenhas gozado comigo. Quero ver-te a ser desejada por alguém que não sou eu.

Senti o rosto a aquecer.

— E queres ser humilhado? — perguntei, direta.

Ele corou.

— Sim — admitiu. — Gosto dessa parte. Mas se tu não quiseres, não precisa de ser assim. Posso ficar só a observar.

— E depois? O que queres que aconteça depois?

— Quero que voltes para casa comigo. Quero que estejamos juntos depois. Quero que me contes como foi, se quiseres. Ou que não contes. O que tu preferires.

— E se eu gostar mais dele do que de ti? — perguntei, para testar.

Ele olhou-me nos olhos.

— Isso assusta-me. Mas também é parte do que me excita.

Ficámos em silêncio durante muito tempo.

— Mais alguma coisa? — perguntei finalmente.

— Quero que sejas feliz — respondeu ele. — Seja qual for a tua decisão. Se quiseres fazer isto uma vez e nunca mais, eu aceito. Se quiseres fazer mais vezes, também aceito. Mas só se for algo que tu queiras.

Olhei para a mesa durante uns segundos.

— Eu ainda não decidi se quero fazer — disse eu, honestamente. — Mas se decidir… quero que seja do meu jeito. Não do teu.

— Está bem.

Levantei-me da mesa. Estava exausta. Tinha a cabeça a latejar.

— Vou dormir — disse eu.

— No quarto de hóspedes? — perguntou ele.

— Sim.

Ele não insistiu.

Antes de sair da cozinha, virei-me uma última vez.

— Amanhã penso melhor — disse eu. — E depois digo-te se quero continuar a falar sobre isto ou se quero acabar aqui.

Ele assentiu.

Fui para o quarto de hóspedes e fechei a porta.

Deitei-me na cama e fiquei a olhar para o teto.

Tínhamos acabado de definir regras para algo que eu ainda nem sabia se queria fazer.

E, pela primeira vez, senti que tinha algum controlo sobre tudo isto.

Mesmo que ainda não soubesse o que ia fazer com ele.






**Capítulo 13 – O Primeiro Teste**

Na quarta-feira de manhã, depois de deixar a Inês na escola, mandei uma mensagem ao Tiago:

«Hoje à noite vamos sair. Só nós dois. Quero fazer o primeiro teste.»

Ele respondeu dois minutos depois:

«Estás a falar a sério?»

«Sim. Mas só flirtear. Nada mais. E tu ficas a observar de longe.»

«Está bem. Onde queres ir?»

«Um bar em Lisboa. Escolho eu.»

Ele não respondeu mais nada.

Durante o dia, senti-me nervosa. Tinha o estômago embrulhado e as mãos frias. Às cinco da tarde, mandei outra mensagem:

«Vou para casa trocar de roupa. Encontro-te no bar às 22h. Tu chegas primeiro e sentas-te longe. Não te aproximes de mim.»

«Entendido.»

Escolhi um bar discreto no Bairro Alto. Um sítio com luz baixa, música ambiente e pessoas entre os trinta e os quarenta anos. Vista-me com um vestido preto justo que não usava há muito tempo, salto alto e batom vermelho. Quando me olhei ao espelho, mal me reconheci.

Cheguei ao bar às 21h55. O Tiago já estava lá, sentado num banco no fundo, com um copo de whisky na mão. Olhou para mim quando entrei, mas não se mexeu. Fiz um pequeno aceno com a cabeça e sentei-me no balcão, a uns bons metros dele.

Pedi um gin tónico e fiquei a olhar para o meu telemóvel, tentando parecer à vontade.

Passados uns vinte minutos, um homem aproximou-se. Tinha uns trinta e cinco anos, cabelo escuro, fato aberto por cima de uma camisa. Sentou-se dois bancos ao meu lado e pediu uma cerveja.

— Vens muitas vezes aqui? — perguntou, virando-se para mim.

— Não. É a primeira vez — respondi, com um sorriso pequeno.

Conversámos durante quase quarenta minutos. Ele chamava-se Miguel. Era advogado também, divorciado, tinha uma filha de oito anos. Era fácil de falar. Ria-se das minhas piadas e fazia-me rir das dele. De vez em quando, eu olhava disfarçadamente para o Tiago. Ele estava sempre no mesmo sítio, a olhar para nós. Não parecia zangado. Parecia… hipnotizado.

Quando o Miguel me perguntou se queria ir para outro sítio tomar mais uma bebida, eu sorri e disse que não. Que tinha de ir para casa.

Ele pareceu um pouco desiludido, mas aceitou bem.

— Foi bom falar contigo — disse ele, antes de pagar a conta e sair.

Eu fiquei mais uns minutos no balcão, a beber o resto do meu gin. Depois levantei-me e fui ter com o Tiago.

— Vamos — disse eu, baixinho.

Ele pagou as contas sem dizer nada e saímos.

No carro, durante o caminho para casa, ninguém falou. O silêncio era denso, carregado. Quando chegámos, a Inês já estava a dormir na casa dos meus pais (tinham-na levado à tarde, como combinámos).

Entrámos em casa e eu fechei a porta.

O Tiago virou-se para mim. Tinha os olhos escuros, cheios de desejo.

— Foi… intenso — disse ele, com a voz rouca.

Não respondi com palavras.

Aproximei-me dele, agarrei-lhe na camisa e beijei-o com força. Ele correspondeu imediatamente, com uma fome que não sentia nele há muito tempo. Levou-me para o quarto (o nosso quarto) e tirou-me o vestido com urgência. Eu tirei-lhe a roupa também.

O sexo foi diferente de tudo o que tínhamos feito nos últimos anos. Foi bruto, intenso, quase desesperado. Ele penetrou-me contra a parede do quarto, depois na cama, depois de novo contra a parede. Gozámos os dois quase ao mesmo tempo, ofegantes e suados.

Depois ficámos deitados na cama, a recuperar o fôlego.

— Como te sentiste? — perguntou ele, depois de uns minutos.

Pensei antes de responder.

— Nervei. Excitada. Culpada. E… poderosa.

Ele virou a cabeça para me olhar.

— Eu também. Foi… muito mais forte do que eu imaginava.

Ficámos em silêncio durante muito tempo.

— Queres fazer de novo? — perguntou ele, finalmente.

— Não sei — respondi, honestamente. — Mas gostei mais do que esperava.

Ele não disse nada. Apenas passou o braço por cima de mim e puxou-me para junto dele.

Adormeci no nosso quarto pela primeira vez em quase três semanas.

E, pela primeira vez desde que tinha descoberto a pasta, não me senti completamente perdida.






**Capítulo 14 – Ciúmes**

Na manhã seguinte, acordei antes do Tiago.

Estava deitada de lado, a olhar para ele a dormir. O sol entrava pelas persianas e iluminava o rosto dele. Parecia cansado, mas também… aliviado. Como se tivesse dormido bem pela primeira vez em semanas.

Eu não tinha dormido bem.

Passava o filme da noite anterior na cabeça sem parar. O bar. O Miguel. A forma como o Tiago me olhava de longe. O sexo depois — intenso, quase animal. E a forma como ele gozou mais forte do que eu me lembrava de ver há muito tempo.

Senti uma mistura estranha no peito.

Por um lado, sentia-me poderosa. Tinha gostado de flertar. Tinha gostado de saber que o Tiago estava a olhar. Tinha gostado do sexo depois.

Por outro lado, sentia uma coisa que não esperava: **ciúmes**.

Não ciúmes do Miguel. Ciúmes da excitação do Tiago.

*Ele gostou tanto porque eu estava com outro homem? Ou gostou porque estava a ser humilhado?*

A pergunta não me saía da cabeça.

Levantei-me devagar, vesti o roupão e fui para a cozinha. Pus água a ferver e preparei o café. Quando o Tiago apareceu, já vestido para trabalhar, sentei-me à mesa e esperei que ele se sentasse também.

— Dormiste bem? — perguntou ele, servindo-se de café.

— Mais ou menos.

Ele olhou para mim, desconfiado.

— Aconteceu alguma coisa?

Respirei fundo.

— Ontem à noite… gostaste muito, não gostaste?

Ele hesitou.

— Gostei. Muito.

— Gostaste porque eu estava com outro homem ou gostaste porque te sentiste… humilhado?

Ele corou ligeiramente.

— As duas coisas — admitiu.

Senti uma pontada no peito.

— Então não foi por minha causa — disse eu, com a voz mais fria do que pretendia. — Foi porque gostas da ideia de seres humilhado.

— Alice…

— Responde-me — interrompi. — Se eu tivesse ido para casa com o Miguel ontem, se tivesse dormido com ele… tu ias gostar mais ou menos?

Ele ficou em silêncio durante muito tempo.

— Ia gostar — respondeu finalmente, baixinho. — Mas também ia doer.

— E isso excita-te, não excita?

Ele não negou.

Senti os olhos a arder.

— Então tu não me amas de verdade — disse eu, com a voz a tremer. — Tu amas a ideia de me veres com outro. Amas a humilhação. Eu sou só… o veículo para o teu fetiche.

— Não é isso! — respondeu ele, levantando a voz pela primeira vez. — Eu amo-te. Amo-te há catorze anos. Mas também tenho este desejo. As duas coisas existem ao mesmo tempo.

— Então como é que eu sei o que é real? — perguntei, com os olhos cheios de lágrimas. — Como é que eu sei que me amas a mim e não só gostas de me ver a ser fodida por outros?

Ele passou as mãos pelo rosto, frustrado.

— Eu não sei como explicar melhor — disse ele. — Só sei que te amo. E que este desejo existe. E que ontem à noite foi uma das coisas mais excitantes que já senti na vida. E isso assusta-me tanto quanto a ti.

Ficámos em silêncio durante muito tempo.

— Eu não sei se consigo continuar — disse eu, finalmente. — Não sei se consigo viver sabendo que o meu marido se excita mais a imaginar-me com outro do que quando estamos os dois sozinhos.

— Ontem não foi assim — respondeu ele. — Ontem foi intenso porque havia tensão. Porque havia novidade. Não foi porque eu te amava menos.

— Mas foi — insisti. — Eu vi a tua cara no bar. Vi como olhavas para mim enquanto eu falava com ele. Nunca me olhaste assim quando estamos sozinhos.

Ele não respondeu.

Levantei-me da mesa.

— Preciso de ar — disse eu. — Vou dar uma volta.

— Alice…

— Deixa-me. Por favor.

Saí de casa e comecei a andar sem destino. O vento de outubro batia-me na cara. As lágrimas começaram a cair quando estava a meio do passeio.

Não era só ciúmes.

Era medo.

Medo de que, no fundo, o Tiago não me quisesse a mim.  
Medo de que quisesse apenas a versão de mim que ele imaginava com outros homens.  
Medo de que o nosso casamento tivesse sido construído em cima de uma mentira durante catorze anos.

Quando voltei para casa, duas horas depois, o Tiago estava na sala à minha espera.

— Podemos falar? — perguntou.

— Ainda não — respondi. — Ainda não consigo.

Fui para o quarto e fechei a porta.

Desta vez, não fui para o quarto de hóspedes.

Fui para o nosso quarto.

E tranquei a porta por dentro.





**Capítulo 15 – A Proposta**

Passaram-se quatro dias depois da discussão sobre os ciúmes.

O Tiago e eu estávamos a tentar voltar ao normal por causa da Inês, mas havia uma tensão constante entre nós. Falávamos pouco. Tocávamo-nos ainda menos. Eu continuava a dormir no nosso quarto, mas virada para o lado contrário.

Na terça-feira à noite, depois de a Inês ir dormir, o Tiago sentou-se na cama ao meu lado e disse:

— Quero propor-te uma coisa.

Senti o estômago apertar imediatamente.

— O quê? — perguntei, já na defensiva.

Ele demorou uns segundos a responder.

— Quero que marques um encontro com alguém. Alguém que aches atraente. Pode ser alguém de uma app, ou alguém que conheças. Alguém com quem te sintas à vontade. E depois… podemos marcar uma noite.

Olhei para ele como se tivesse dito algo em outra língua.

— Estás a falar a sério?

— Sim — respondeu ele, calmo. — Acho que o teste no bar correu bem. Acho que estás mais aberta do que pensavas. E acho que, se quisermos avançar, temos de dar o passo seguinte.

Senti o coração acelerar.

— Não — disse eu, imediatamente. — Não estou pronta para isso.

— Eu sei que é um passo grande — continuou ele. — Mas podemos fazer com calma. Podes escolher a pessoa. Podemos definir tudo antes. Eu só quero que experimentes uma vez. Se não gostares, paramos.

— Tu estás a pressionar-me outra vez — disse eu, com a voz a tremer. — Disseste que me davas tempo. Disseste que a decisão era minha. E agora estás a sugerir que marque um encontro com outra pessoa?

— Não estou a pressionar — respondeu ele. — Estou só a propor. Se não quiseres, não fazes.

— Mas estás a propor todos os dias — respondi, levantando a voz. — Primeiro foi o bar. Agora é um encontro real. Amanhã vais querer que eu durma com alguém? Depois vais querer que eu faça regularmente? Onde é que isto para?

Ele passou as mãos pelo rosto.

— Eu não sei onde pára — admitiu. — Só sei que gosto disto. E que tu também pareceste gostar no bar. E quero ver até onde podemos ir.

— Eu não sei se gosto! — gritei. — Eu gostei de flertar. Gostei do sexo depois. Mas isso não significa que queira ir para a cama com outro homem enquanto tu olhas!

Ele ficou em silêncio.

— Eu tenho medo — disse eu, mais baixo, com os olhos a encherem-se de lágrimas. — Tenho medo de gostar. Tenho medo de não gostar. Tenho medo de te perder. Tenho medo de perder a mim mesma. E tu estás a empurrar-me para a frente como se isto fosse uma coisa normal.

— Desculpa — murmurou ele. — Eu só… só quero que experimentemos.

— Eu preciso de mais tempo — disse eu, secamente. — Muito mais tempo. Não me peças mais nada durante pelo menos um mês. Se quiseres continuar a falar sobre isto, falamos. Mas não me peças para marcar encontros. Não me peças para avançar. Eu decido quando e se quero dar o passo seguinte.

Ele assentiu, parecendo derrotado.

— Está bem — disse ele. — Um mês. Sem pressão.

Levantei-me da cama e fui para a casa de banho. Fechei a porta e sentei-me no chão, encostada à parede.

As lágrimas começaram a cair em silêncio.

Não sabia se estava zangada com ele por estar a pressionar.

Ou zangada comigo mesma por, no fundo, uma parte de mim já estar a considerar a hipótese.

Quando voltei para o quarto, o Tiago estava deitado de costas, a olhar para o teto.

— Boa noite — disse ele, baixinho.

— Boa noite — respondi.

Deitei-me ao meu lado da cama, virada para o lado contrário.

E fiquei acordada durante muito tempo, a pensar se um mês seria suficiente para decidir se queria ou não destruir o meu casamento.





**Capítulo 16 – A Noite em que Quase Acontece**

Passaram-se quase três semanas desde que eu tinha imposto o “um mês sem pressão”. Na verdade, foram só dezoito dias. Eu não aguentei mais.

Na segunda-feira, depois de deixar a Inês na escola, abri uma app de encontros que tinha descarregado em segredo. Criei um perfil sem fotografias do rosto. Só uma foto do corpo, vestida. Depois de alguns dias a falar com vários homens, escolhi um.

Chamava-se **Daniel**. Tinha 34 anos, era solteiro, trabalhava em marketing. Tinha uma foto onde sorria de forma fácil e parecia simpático. Falámos durante uma semana. Ele era direto, mas respeitoso. Quando lhe contei (de forma vaga) que estava num casamento aberto e que o meu marido sabia, ele não se assustou. Disse que já tinha estado com casais antes.

Na quinta-feira à noite, depois de a Inês ir dormir, sentei-me com o Tiago na cozinha e disse:

— Encontrei alguém. Chama-se Daniel. Quero marcar com ele.

Ele ficou quieto durante uns segundos.

— Tens a certeza? — perguntou.

— Não — respondi, honestamente. — Mas quero tentar. Se não tentar agora, acho que nunca vou conseguir decidir.

Marcámos para o sábado seguinte. Um hotel discreto em Cascais. Eu disse ao Daniel que o meu marido estaria presente, mas só a observar. Ele aceitou.

No sábado, vesti-me com cuidado. Um vestido preto simples, lingerie nova que tinha comprado sem o Tiago saber. Quando estávamos no carro a caminho do hotel, as minhas mãos tremiam tanto que tive de as apertar entre as coxas.

— Se quiseres parar em qualquer momento, paramos — disse o Tiago, sem tirar os olhos da estrada.

— Eu sei — respondi.

Daniel já estava no hotel quando chegámos. Tinha reservado um quarto no segundo andar. Quando abri a porta, ele estava à espera. Era mais alto do que nas fotos. Tinha um sorriso calmo.

— Olá — disse ele.

— Olá — respondi, com a voz mais rouca do que esperava.

O Tiago entrou atrás de mim e sentou-se numa poltrona no canto do quarto, como combinámos. Não disse nada. Limitou-se a observar.

Daniel aproximou-se de mim. Beijou-me no pescoço primeiro, devagar. Depois na boca. As mãos dele eram quentes. Eu correspondi o beijo, mas o meu corpo estava rígido.

Ele tirou-me o vestido. Eu fiquei de lingerie preta. Ele beijou-me os seios por cima do soutien. Depois desceu. As mãos dele tocaram-me entre as pernas por cima da cueca. Eu estava molhada. Muito molhada.

Olhei para o Tiago. Ele estava sentado na poltrona, a olhar. Tinha a respiração pesada. Os olhos escuros.

Daniel deitou-me na cama e tirou a cueca. Abriu as minhas pernas e começou a lamber-me. Eu gemi. Fechei os olhos.

E foi nesse momento que tudo desmoronou.

De repente, senti uma onda de pânico tão forte que me cortou a respiração. Abri os olhos. Vi o Tiago sentado na poltrona. Vi o Daniel entre as minhas pernas. Vi o quarto de hotel desconhecido.

*O que é que eu estou a fazer?*

— Para — disse eu, com a voz a tremer.

Daniel parou imediatamente.

— Tudo bem? — perguntou.

— Não — respondi. — Desculpa. Eu… eu não consigo.

Levantei-me da cama, apanhei o vestido do chão e vesti-o às pressas. As mãos tremiam tanto que não conseguia fechar o fecho.

— Alice… — chamou o Tiago, levantando-se da poltrona.

— Não me toques — disse eu, afastando-me dele.

Virei-me para Daniel.

— Desculpa. Eu… eu não estou pronta. Lamento ter-te feito perder tempo.

Ele pareceu surpreendido, mas acenou com a cabeça.

— Tudo bem. Acontece.

Sai do quarto sem olhar para o Tiago. Desci as escadas a correr. Quando cheguei ao carro, entrei e tranquei as portas. As lágrimas começaram a cair antes mesmo de pôr o motor a trabalhar.

Cheguei a casa às onze da noite. A Inês estava a dormir. Entrei no quarto, tirei o vestido e deitei-me na cama vestida só com a lingerie.

O Tiago chegou vinte minutos depois.

Sentou-se na beira da cama, sem me tocar.

— Queres falar? — perguntou, baixinho.

— Não — respondi, com a voz embargada. — Quero só chorar.

Ele ficou sentado ali durante muito tempo, em silêncio.

— Eu lamento — disse ele, finalmente. — Lamento ter-te pressionado. Lamento tudo.

— Eu também lamento — respondi. — Lamento ter chegado tão longe e depois… parar.

— Não tens de pedir desculpa por isso.

— Mas eu queria — disse eu, virando a cara para ele. — Eu queria conseguir. E não consegui.

Ele deitou-se ao meu lado, por cima da roupa da cama, e passou o braço por cima de mim. Eu não o afastei.

Ficámos os dois deitados no escuro, sem dizer mais nada.

Eu a chorar em silêncio.

Ele a segurar-me, sem saber o que dizer.

E, pela primeira vez, nenhum de nós sabia o que ia acontecer a seguir.






**Capítulo 17 – O Ponto de Rutura**

Passaram-se cinco dias depois da noite no hotel.

Eu tinha chorado muito. Tinha dormido pouco. Tinha passado horas a pensar. E cheguei a uma conclusão:

Não podia continuar assim.

Não podia continuar a viver num meio-termo onde eu flertava, quase ia para a cama com outro homem, depois desistia, e depois voltava a pensar se queria ou não. Não podia continuar a ver o Tiago dividido entre o amor por mim e o desejo que ele tinha de me ver com outros.

Na quinta-feira à noite, depois de deitar a Inês, sentei-me na cama e olhei para ele.

— Quero que sejas completamente honesto comigo — disse eu. — Sem filtros. Sem medo de me magoar. Quero que me digas exatamente o que queres ver. O que te excita mais. Sem meias palavras.

Ele ficou quieto durante muito tempo.

— Tens a certeza? — perguntou, finalmente.

— Tenho.

Ele respirou fundo e começou a falar. A voz estava baixa, mas clara.

— Quero ver-te a ser fodida por outro homem. Quero ver-te a gozar com ele de uma forma que talvez nunca tenhas gozado comigo. Quero que tu olhes para mim enquanto estás a ser penetrada e me digas que o pau dele é maior, que ele te fode melhor, que tu gostas mais dele do que de mim.

Senti o estômago revirar-se, mas não o interrompi.

— Quero que tu sejas livre — continuou ele. — Quero que possas fazer o que quiseres com outros homens. Quero que voltes para casa e me contes tudo. Quero que me uses. Quero que me digas que eu sou só o teu marido e que os outros são para te dar prazer. Quero que, por vezes, me faças limpar-te com a boca depois de outro homem ter gozado dentro de ti.

A voz dele tremeu um pouco na última frase, mas continuou.

— Quero ser humilhado por ti. Quero que tu me digas que eu sou pequeno, que não te satisfaço completamente, que precisas de outros para sentires o que eu não consigo dar-te. E quero que, mesmo assim, tu continues a amar-me. Quero que estejas comigo depois de tudo.

Ficou em silêncio.

Eu também.

O quarto estava tão quieto que se ouvia o relógio da mesinha-de-cabeceira.

— É isso que queres realmente? — perguntei, depois de muito tempo.

— Sim — respondeu ele, sem hesitar. — É isso que me excita mais. É isso que sonho há anos.

Olhei para ele durante muito tempo.

— E se eu nunca conseguir fazer isso? — perguntei. — E se eu nunca conseguir ser a mulher que tu queres ver?

— Então aceito — disse ele. — Tento viver sem isto. Ou aceito que o casamento acabe.

Senti as lágrimas a subir.

— Eu não sei se consigo ser essa mulher — admiti. — Mas também não sei se consigo continuar a viver sabendo que tu queres isso e eu nunca te dou.

Ele não respondeu.

Levantei-me da cama e fui até à janela. Olhei para o jardim escuro lá fora.

— Preciso de decidir — disse eu, com a voz baixa. — Não posso continuar neste meio-termo. Ou eu aceito completamente… ou acabamos o casamento.

— Eu sei — respondeu ele.

Virei-me para ele.

— Dá-me mais uns dias — pedi. — Quero pensar. Quero pensar a sério. E depois digo-te o que decido.

Ele assentiu.

— O tempo que precisares.

Saí do quarto e fui para a cozinha. Sentei-me à mesa no escuro e fiquei ali durante muito tempo, só a olhar para as minhas mãos.

Tinha chegado ao ponto de rutura.

Ou eu aceitava o fetiche do Tiago por completo — com tudo o que isso implicava — ou acabava o casamento de catorze anos.

E, pela primeira vez, percebi que nenhuma das opções era fácil.

Nem uma.  
Nem a outra.




**Capítulo 18 – A Primeira Vez**

Na segunda-feira seguinte, depois de deixar a Inês na escola, mandei uma mensagem ao Tiago:

«Decidi tentar. Quero marcar com o Daniel outra vez. Desta vez vou até ao fim.»

Ele respondeu quase imediatamente:

«Tens a certeza?»

«Não. Mas quero tentar. Se não tentar agora, nunca vou saber.»

Marcámos para a sexta-feira seguinte. O mesmo hotel em Cascais. Desta vez, combinei com o Daniel que o Tiago estaria presente no quarto, sentado na poltrona, a observar. Sem participar. Sem falar, a menos que eu pedisse.

Na sexta-feira à noite, vesti-me com mais cuidado do que nunca. Lingerie nova. Vestido preto justo. Cabelo solto. Quando me olhei ao espelho, vi uma mulher que mal reconhecia.

No carro, durante o caminho, o Tiago conduzia em silêncio. Eu também não falei. As mãos estavam frias e suadas.

Quando chegámos ao hotel, Daniel já estava no quarto. Abriu a porta com um sorriso calmo.

— Olá — disse ele.

— Olá — respondi.

O Tiago entrou atrás de mim e sentou-se na poltrona do canto, como combinado. Não disse nada. Limitou-se a olhar.

Daniel aproximou-se de mim e beijou-me. Desta vez, eu correspondi com mais vontade. As mãos dele desceram pelas minhas costas e abriram o fecho do vestido. Deixei-o cair ao chão. Fiquei de lingerie preta.

Ele beijou-me o pescoço, os ombros, os seios. Depois ajoelhou-se e tirou-me a cueca. Abriu as minhas pernas e começou a lamber-me devagar. Eu gemi e olhei para o Tiago. Ele estava sentado, a olhar fixamente. Tinha a respiração pesada.

Daniel levantou-se, despiu-se e deitou-me na cama. Tinha um corpo bonito, definido, e um pau grande e duro. Abriu as minhas pernas e penetrou-me devagar.

Eu gemi alto.

Ele começou a foder-me com um ritmo constante, profundo. Eu agarrava-me aos lençóis e olhava para o Tiago. Ele não tirava os olhos de mim. Tinha a mão por cima da roupa, a tocar-se por cima das calças.

— Olha para ele — disse Daniel, baixinho, ao meu ouvido. — Olha para o teu marido enquanto eu te fodo.

Eu olhei. O Tiago tinha os olhos escuros, cheios de desejo e algo que parecia dor.

Daniel fodeu-me mais forte. Mudou de posição, pôs-me de quatro e penetrou-me por trás. Eu gemia sem parar. Quando olhava para o Tiago, via que ele tinha aberto as calças e se masturbava devagar.

— Goza — disse ele, com a voz rouca. — Goza nele, Alice.

As palavras dele fizeram-me gozar. Gozei forte, com o corpo a tremer, a cara enterrada no travesseiro. Daniel continuou a foder-me até gozar também, dentro de mim, com um gemido baixo.

Depois deitou-se ao meu lado, ofegante.

Eu fiquei deitada de barriga para baixo, a recuperar o fôlego. O Tiago ainda estava na poltrona, com o pau na mão, a olhar para mim.

Daniel levantou-se, vestiu-se e beijou-me na testa.

— Foi bom — disse ele, baixinho. — Se quiserem repetir, sabem onde me encontrar.

Saiu do quarto e fechou a porta.

Ficámos os dois em silêncio durante muito tempo.

Depois levantei-me da cama, nua, com o esperma dele a escorrer pelas minhas coxas. Aproximei-me do Tiago e ajoelhei-me à frente dele.

— Chupa-me — disse eu, com a voz baixa mas firme.

Ele olhou para mim, surpreendido.

— Chupa-me — repeti. — Limpa-me.

Ele desceu da poltrona, ajoelhou-se no chão e enterrou a cara entre as minhas pernas. Começou a lamber-me devagar, a limpar o esperma do Daniel com a língua. Eu agarrei-lhe no cabelo e gemi.

Quando ele acabou, levantei-o, beijei-o na boca (sabendo que tinha o gosto do outro homem) e deitei-o na cama. Montei-o e fodi-o com força, olhando-o nos olhos.

— Tu gostaste de ver, não gostaste? — perguntei, enquanto o montava.

— Gostei — respondeu ele, com a voz rouca.

— Gostaste de me ver a ser fodida por outro?

— Gostei — repetiu ele.

Gozei outra vez, desta vez em cima dele. Ele gozou logo depois, dentro de mim.

Depois deitamos os dois na cama, suados e ofegantes.

Eu comecei a chorar.

Não era choro de tristeza. Era choro de alívio, de confusão, de libertação.

O Tiago abraçou-me e beijou-me o cabelo.

— Está tudo bem — murmurou.

— Não sei — respondi, entre soluços. — Não sei se está tudo bem. Mas fiz. Fiz mesmo.

Ele não respondeu. Limitou-se a apertar-me mais contra ele.

Ficámos os dois deitados no escuro durante muito tempo, sem dizer mais nada.

A primeira vez tinha acontecido.

E nada voltaria a ser igual.





**Capítulo 19 – O Depois**

Acordei no hotel com a luz da manhã a entrar pelas cortinas. O Tiago estava deitado ao meu lado, a dormir. Tinha o braço por cima da minha cintura.

Durante uns segundos, não me lembrei do que tinha acontecido. Depois tudo voltou de uma vez.

O Daniel.  
O quarto de hotel.  
O Tiago na poltrona a olhar.  
Eu de quatro a ser fodida.  
O Tiago a limpar-me com a boca.  
Eu a montá-lo depois.

Sentei-me na cama devagar. O corpo doía num sítio agradável. Entre as pernas ainda estava húmida. Senti o cheiro do sexo no quarto.

Olhei para o Tiago a dormir e senti uma mistura tão forte de sentimentos que quase me enjoou.

Excitação.  
Vergonha.  
Amor.  
Medo.

*O que é que eu fiz?*

Levantei-me e fui para a casa de banho. Pus-me debaixo do chuveiro quente e fiquei lá durante muito tempo, a deixar a água correr pela cara.

Quando saí, o Tiago já estava acordado, sentado na beira da cama, de cuecas.

— Bom dia — disse ele, com a voz rouca.

— Bom dia — respondi.

Sentámo-nos os dois na cama, um de frente para o outro. Durante muito tempo, nenhum de nós falou.

— Como te sentes? — perguntou ele, finalmente.

Pensei antes de responder.

— Confusa. Excitada. Culpada. E… estranhamente aliviada.

Ele assentiu.

— Eu também. Foi… muito mais forte do que eu imaginava.

— Tu gostaste mesmo? — perguntei. — De me ver com ele?

— Gostei — admitiu, sem hesitar. — Muito. Mas também doeu. Ver-te a gozar com ele… ver-te a olhar para mim enquanto ele te fodia… foi intenso. De uma forma boa e má ao mesmo tempo.

— E quando eu te pedi para me lamber? — continuei. — Quando te fiz limpar o esperma dele?

Ele corou ligeiramente.

— Isso foi… uma das coisas mais excitantes que já me aconteceram.

Fiquei em silêncio durante uns segundos.

— Eu gostei — admiti, baixinho. — Gostei de te mandar. Gostei de te ver ajoelhado. Gostei de sentir que tinha poder sobre ti. E gostei de ser fodida por ele. Gostei da sensação de ser… usada.

As palavras saíram antes de eu conseguir pará-las.

O Tiago olhou para mim com uma mistura de desejo e surpresa.

— E agora? — perguntou ele. — O que é que sentes agora?

— Tenho medo — respondi, honestamente. — Medo de gostar demasiado. Medo de te perder. Medo de perder o respeito por mim mesma. Medo de que isto destrua o nosso casamento em vez de o melhorar.

Ele estendeu a mão e agarrou na minha.

— Eu também tenho medo — disse ele. — Medo que tu gostes mais dele do que de mim. Medo que isto mude tudo de uma forma que não conseguimos controlar.

Ficámos os dois em silêncio durante muito tempo, de mãos dadas.

— Queres repetir? — perguntou ele, finalmente.

— Não sei — respondi. — Parte de mim quer. Parte de mim acha que foi um erro. E parte de mim está aterrorizada com as duas opções.

Ele apertou-me a mão.

— Então não decidimos nada agora. Voltamos para casa. Voltamos à nossa vida. E vemos o que sentimos nos próximos dias.

Assenti.

Levantámo-nos, vestimo-nos e saímos do hotel em silêncio.

No carro, durante o caminho para casa, olhei pela janela e pensei em tudo o que tinha acontecido nas últimas semanas.

Tinha descoberto que o meu marido gostava de ser corno.  
Tinha experimentado.  
Tinha gostado de partes disso.  
E agora não sabia quem era.

Quando chegámos a casa, a Inês ainda não tinha voltado dos avós. A casa estava silenciosa.

O Tiago abraçou-me por trás na cozinha e beijou-me o pescoço.

— Amo-te — murmurou.

— Eu também te amo — respondi.

E, pela primeira vez em muito tempo, acreditei que as duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo.

Mesmo que eu ainda não soubesse o que ia acontecer a seguir.



**Capítulo 20 – A Nova Dinâmica**

Nas semanas seguintes, tentámos criar uma nova rotina.

Não foi fácil.

Havia dias em que tudo parecia mais intenso e mais vivo. O Tiago e eu falávamos mais abertamente sobre sexo do que nunca. Fazíamos amor com mais fome, mais criatividade. Ele parecia mais presente, mais atento a mim. Eu sentia-me mais desejada.

Mas também havia dias em que a tensão voltava.

Uma noite, depois de fazermos amor, o Tiago perguntou-me se eu tinha pensado no Daniel. Eu respondi que sim. Ele ficou quieto durante muito tempo. Depois disse que isso o excitava e, ao mesmo tempo, o fazia sentir inseguro.

— E se tu gostares mais dele do que de mim? — perguntou, com a voz baixa.

— Eu não gosto mais dele — respondi. — Eu gosto da sensação. Gosto do poder. Gosto da novidade. Mas és tu que eu amo.

Ele pareceu aliviado, mas eu sabia que a dúvida continuava lá.

Eu também tinha os meus momentos de insegurança.

Uma tarde, enquanto estávamos os dois na cozinha, perguntei-lhe:

— E se eu quiser fazer isto mais vezes? E se eu quiser ter mais homens?

Ele olhou para mim durante muito tempo.

— Eu aceito — respondeu. — Mas quero que sejas honesta comigo. Quero saber quando estás com alguém. Quero que me contes depois. E quero que continues a ser minha mulher.

— E se eu gostar de ser “puta” de outros homens? — perguntei, usando a palavra que ele tanto gostava de ouvir.

Ele corou.

— Isso também me excita — admitiu.

Eu apertei as mãos no balcão da cozinha.

— Eu ainda estou a descobrir o que gosto — disse eu. — E isso assusta-me. Porque há partes de mim que estão a gostar disto mais do que eu pensava que ia gostar.

Ele aproximou-se e abraçou-me por trás.

— Então descobre — murmurou ao meu ouvido. — Eu estou aqui. Não vou a lado nenhum.

Havia noites em que eu pedia para ele me lamber depois de fazermos amor, só para sentir o gosto dele em mim. Havia noites em que eu o fazia masturbar-se enquanto eu lhe contava fantasias sobre outros homens. E havia noites em que só queríamos fazer amor como sempre tínhamos feito — devagar, carinhoso, sem nada mais.

A nova dinâmica era isso: uma mistura constante de excitação, insegurança, amor e medo.

Uma noite, depois de a Inês ir dormir, sentei-me no sofá ao lado dele e disse:

— Quero fazer de novo. Com o Daniel ou com outra pessoa. Quero sentir outra vez.

Ele olhou para mim.

— Quando quiseres — respondeu.

— E tu? — perguntei. — Ainda queres isto?

— Quero — disse ele, sem hesitar. — Mas quero que sejas tu a decidir quando e como.

Aproximei-me e beijei-o.

— Obrigada — disse eu.

— Porquê?

— Por me deixares descobrir isto. Mesmo que seja assustador.

Ele sorriu, triste e terno ao mesmo tempo.

— Eu também estou a descobrir — respondeu. — Estamos os dois a aprender.

Deitei a cabeça no ombro dele e ficámos os dois no sofá, em silêncio, a olhar para a televisão sem a vermos realmente.

A nossa vida tinha mudado para sempre.

E, pela primeira vez, comecei a pensar que talvez não fosse necessariamente para pior.

Mesmo que ainda não soubesse exatamente para onde íamos.





**Capítulo 21 – A Verdade**

Uma noite de terça-feira, depois de a Inês ir dormir, estávamos os dois na cama. O Tiago lia um livro e eu estava deitada de lado, a olhar para ele sem conseguir concentrar-me nas páginas do meu.

Tinha uma pergunta que me andava a martelar na cabeça há vários dias. Uma pergunta que me assustava, mas que eu sabia que precisava de fazer.

— Tiago? — chamei, baixinho.

Ele fechou o livro e virou-se para mim, apoiando a cabeça na mão.

— Diz.

Respirei fundo e decidi ser direta.

— Se eu gostar disto… se eu começar a gostar mesmo de estar com outros homens… vais continuar a gostar de mim da mesma forma? Ou vais começar a ver-me de outra maneira?

Ele ficou em silêncio durante muito tempo. Quando respondeu, a voz estava baixa e um pouco rouca.

— Eu tenho medo disso — admitiu. — Tenho medo que tu mudes. Que comeces a gostar mais da excitação de estar com outros do que de estar comigo. Tenho medo que, um dia, olhes para mim e já não me vejas como o teu homem… mas só como o tipo que precisa de ser humilhado para se sentir excitado.

Senti o peito apertar.

— E se isso acontecer? — perguntei. — E se eu começar a gostar mais da versão “corno” de ti do que da versão “marido”?

Ele olhou para mim com uma honestidade que doeu.

— Então acho que o nosso casamento morre — respondeu, sem rodeios. — Porque eu não quero viver num casamento onde tu me desprezas. Eu gosto de ser humilhado no sexo. Gosto de te ver a mandar em mim, a usar-me, a dizer-me que sou pequeno. Mas preciso de saber que, fora da cama, tu ainda me respeitas. Que ainda me vês como teu igual. Como o pai da tua filha. Como o homem que te ama há catorze anos.

— Eu também tenho medo — disse eu, com a voz a tremer. — Medo de gostar demasiado disto. Medo de me viciar na sensação de poder que sinto quando estou com outro homem e tu estás a olhar. Medo de começar a precisar cada vez mais disso e cada vez menos de ti. Medo de te magoar sem querer.

Ele estendeu a mão e agarrou na minha por cima do lençol.

— E se tu gostares mais de outro homem? — perguntou ele, baixinho. — E se encontrares alguém que te dá algo que eu não consigo dar?

— Eu não sei — respondi, honestamente. — É exatamente isso que me assusta. E se eu gostar mais? E se começar a comparar? E se, um dia, olhar para ti e sentir que já não és suficiente?

As lágrimas começaram a subir-me aos olhos.

— Eu amo-te — disse eu, com a voz embargada. — Amo-te de verdade. Mas também estou a descobrir que gosto de coisas que nunca pensei que ia gostar. E tenho medo que isso acabe por nos destruir.

O Tiago apertou-me a mão com mais força.

— Eu também tenho medo — admitiu. — Medo que tu vás gostando cada vez mais e que eu fique para trás. Medo que tu me vejas cada vez mais pequeno e que isso acabe por te afastar de mim. Medo de perder o respeito que tu tens por mim… e de perder o teu amor.

— E se eu perder o respeito por ti? — perguntei, com as lágrimas a cair. — E se eu começar a ver-te só como o meu “marido corno” e não como o homem que escolhi para passar a vida?

Ele ficou em silêncio durante uns segundos, a olhar para as nossas mãos dadas.

— Então temos de parar — respondeu, com a voz firme mas triste. — Porque eu não quero viver assim. Eu quero ser humilhado no sexo. Quero ser usado. Mas preciso de sentir que, no fundo, tu ainda me amas e me respeitas. Se isso desaparecer… para mim também acaba.

Limpei as lágrimas com as costas da mão.

— Eu não quero perder-te — disse eu. — Mas também não quero mentir para mim mesma. Estou a gostar disto. Estou a gostar de descobrir esta parte de mim. E isso assusta-me tanto quanto excita.

Ele puxou-me para junto dele e abraçou-me com força. Eu encostei a cara ao peito dele e chorei em silêncio durante uns minutos.

— Então vamos com muito cuidado — murmurou ele, beijando-me o topo da cabeça. — Vamos devagar. E prometemos uma coisa um ao outro: se em algum momento sentires que estás a perder o respeito por mim… ou eu sentir que estou a perder o teu amor… dizemos. Sem guardar. Sem fingir.

— Prometo — respondi, com a voz abafada contra o peito dele.

— Eu também prometo — disse ele.

Ficámos os dois abraçados no escuro durante muito tempo, sem dizer mais nada. Eu ouvia o coração dele a bater depressa.

— Eu amo-te — disse ele, depois de muito tempo. — Mesmo com medo. Mesmo com tudo isto. Amo-te.

— Eu também te amo — respondi. — E é exatamente por isso que tenho tanto medo de estragar tudo.

Ele beijou-me o cabelo e apertou-me mais contra si.

Ficámos os dois deitados, abraçados, sem conseguir dormir.

Pela primeira vez desde que tudo tinha começado, tínhamos falado sobre o que realmente nos assustava.

E, mesmo com o medo, havia uma sensação estranha de alívio.

Porque, pela primeira vez, estávamos os dois completamente expostos.





**Capítulo 22 – E Agora?**

Passaram-se três meses desde a primeira vez com o Daniel.

A nossa vida não voltou ao normal. Criámos uma nova versão dela.

Continuámos a explorar. Não com frequência — duas ou três vezes por mês, no máximo. Às vezes com o Daniel, outras vezes com homens diferentes que eu escolhia. Sempre com regras claras. Sempre com o Tiago presente. Sempre com a possibilidade de parar a qualquer momento.

Havia dias bons.  
Havia dias difíceis.  
Havia dias em que eu me sentia poderosa, desejada e viva de uma forma que nunca tinha sentido.  
Havia dias em que olhava para o Tiago e sentia uma culpa tão grande que quase me sufocava.

Mas havia uma coisa que tinha mudado para sempre: já não havia mentiras entre nós.

Falávamos abertamente sobre tudo. Sobre o que eu sentia quando estava com outro homem. Sobre o que ele sentia quando me via. Sobre os medos que ainda tínhamos. Sobre o que nos excitava e o que nos assustava.

Uma noite de inverno, depois de voltarmos de um encontro com um homem chamado Pedro, estávamos os dois deitados na nossa cama. Eu tinha a cabeça apoiada no peito dele e ele fazia-me carinho no cabelo.

— Ainda queres isto? — perguntei, baixinho.

Ele demorou uns segundos a responder.

— Quero — disse ele. — Mas só enquanto sentires que ainda me amas. E enquanto eu sentir que ainda me respeitas.

— E se um dia eu deixar de te respeitar? — perguntei.

— Então paramos — respondeu, sem hesitar. — Mesmo que doa. Mesmo que eu queira continuar. Tu decides.

Virei a cara e olhei para ele.

— E se eu gostar cada vez mais? E se quiser fazer isto com mais frequência? E se quiser… ter mais liberdade?

Ele olhou para o teto durante muito tempo.

— Eu aceito — disse finalmente. — Mas preciso que sejas honesta comigo. Se sentires que estás a afastar-te de mim, diz-me. Não quero viver uma mentira.

— Eu também não — respondi.

Ficámos em silêncio durante muito tempo.

— Eu ainda te amo — disse eu, depois de um bocado. — Amo-te de uma forma diferente agora. Mais crua. Mais verdadeira. Mas ainda te amo.

Ele beijou-me o topo da cabeça.

— Eu também te amo — murmurou. — Mesmo quando dói. Mesmo quando tenho ciúmes. Mesmo quando tenho medo.

Deitei-me de costas e olhei para o teto no escuro.

Pensei em tudo o que tinha acontecido desde o dia em que descobri a pasta no computador dele. Pensei no choque, na raiva, na confusão, na curiosidade, no medo e na excitação. Pensei na primeira vez que tinha feito amor com outro homem enquanto o meu marido olhava. Pensei nas noites em que tinha chorado. Pensei nas noites em que tinha gozado mais forte do que nunca.

E pensei na Inês, que continuava a ser o centro da nossa vida, mesmo com tudo o que estava a acontecer entre nós.

Não sabia o que ia acontecer daqui para a frente.

Não sabia se íamos conseguir manter este equilíbrio durante anos ou se, um dia, isto ia acabar por nos separar.

Não sabia se eu ia continuar a gostar disto ou se, num futuro próximo, ia querer parar.

Só sabia uma coisa:

Já não vivíamos uma mentira.

E, por agora, isso era suficiente.

Virei-me para o Tiago e beijei-o devagar.

— Boa noite — disse eu.

— Boa noite — respondeu ele, apertando-me contra si.

Apaguei a luz.

E, pela primeira vez em muito tempo, adormeci sem medo do dia seguinte.